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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Entrevista: Vicente Moliterno

Realidade através das lentes: Vicente Moliterno e seu Expresso Jacintinho
Diogo Braz

O jovem fotógrafo Vicente Moliterno é, antes de tudo, um artista fotográfico. Suas imagens carregam mais que aquelas famosas mil palavras; carregam sentimentos, sensações e emoções próprias de peças de arte. Cada clique é como que uma pincelada em sua composição analógica da realidade. Como Trabalho de Conclusão de Curso, Vicente resolveu mostrar ao público a visão que tem do bairro mais populoso de Maceió, o Jacintinho, e inaugurou a exposição “Expresso Jacintinho”, que ficará em cartaz gratuitamente no Espaço Cultural Linda Mascarenhas até o dia 22 de dezembro.
O fotógrafo concedeu uma entrevista ao Blog do Espaço Cultural Linda Mascarenhas, compartilhando um pouco do seu olhar sobre o Jacintinho, fotografia, técnicas e arte. Vale a pena ler e conferir a exposição.

Vicente Moliterno e sua obra artística - Foto de Diogo Braz

 Como foi que nasceu o conceito para realizar as fotos de "Expresso Jacintinho"?
As coisas foram acontecendo naturalmente desde quando resolvi trabalhar o bairro através das fotos. Primeiro eu comecei com a câmera digital, mas fui percebendo que as fotos que eu mais gostava eram aquelas onde predominavam efeitos que geravam sobreposições, como os de espelhos de vitrines, de fato as que eu mais gostava eram as menos nítidas, as mais artísticas, por assim dizer, e daí quando comprei a câmera analógica e percebi que poderia fazer aqueles e outros muitos efeitos, principalmente o de sobreposição de imagens. Percebi também que poderia explorar bastante as cores e contrastes através dos diferentes filmes que poderia usar... Foi aí ficou claro para mim que a fotografia analógica, e o que ela proporcionava, seria a melhor forma de retratar o bairro do Jacintinho, que para mim exalava cores vivas e, acima de tudo, simultaneidade de acontecimentos.

Por que você escolheu a técnica de sobreposição de imagens na criação das fotos para a exposição? 
Através dessa técnica eu consegui retratar melhor as sensações que vivenciei ao percorrer o bairro. Para mim é impressionante como ali, num pequeno espaço, acontece tanta coisa ao mesmo tempo. Nos chamados "horários de pico" o que se nota é um fluxo interminável de automóveis, motos, bicicletas, pessoas, animais... São muitos estímulos aos sentidos, e eu achei que se sobrepusesse vários acontecimentos numa só imagem poderia expressar melhor o que seria estar "imerso" no Jacintinho.

Como o bairro do Jacintinho inspirou a sua produção?
O bairro era para mim até então desconhecido, eu nunca havia andado por ali até o começo do trabalho, e pra mim foi muito bom conhecer o bairro de forma gradual, ir sentindo mesmo as suas ruas, as suas pessoas. Hoje é um lugar que eu nunca deixo de ir, já criei um sentimento de pertencimento àquele lugar. Além do mais, eu tenho esse gosto por fotografar a cidade, sobretudo partes da cidade que são marginalizadas, que ficam longe dos cartões postais que geralmente são divulgados, mas que eu acho que guardam muito mais da cidade e do que somos.

Público confere o Expresso Jacintinho em noite de estreia - Foto de Diogo Braz

Nem sempre é fácil olhar para a foto de um lugar caótico e enxergar a beleza, parece que os olhos das pessoas estão habituados a enxergar a beleza padronizada de paisagens com um certo senso de leveza e organização, o que muitas vezes não nos retrata como sociedade. Como fotógrafo, como é que você lida com esse estranhamento do público em relação ao que a sociedade é mas não quer enxergar? Como você lida com essa questão de tornar atrativa uma foto de algo que a maioria das pessoas prefere não encarar?
Eu acho que as minhas fotos estão meio que num limiar entre esse olhar de leveza que você diz estar presente na maioria das fotos de paisagens, e esse outro olhar, que aponta para uma "denúncia" daquilo que a sociedade não parece querer enxergar. As minhas fotos, segundo o meu ponto de vista, não se enquadrariam nem como paisagens de cartões-postais tradicionais, nem como fotografias como as consideradas "engajadas", aquela fotografia que faz denúncia social... Desde o início, o que eu tinha em mente era poder trazer às pessoas um outro olhar sobre o bairro, e através desse "estranhamento", tentar fazer com que as pessoas parassem para pensar ou refletir sobre aquela realidade. Nem o belo pelo belo me interessava, nem somente o documento dito "engajado"... Eu queria flutuar nesses dois âmbitos, entende? Creio muito que a visão é por onde podem ocorrer muitas transformações, e mudar o modo como tradicionalmente enxergamos, questionar a perspectiva estabelecida, a ordem em que as coisas nos são apresentadas visualmente, isso me interessa bastante. 

A exposição fica em cartaz até 22/12 no Espaço Linda - Foto de Diogo Braz


Como você analisa o seu trabalho até a exposição? Digo: Como você enxerga a sua caminhada dentro da fotografia até chegar a este momento presente?
Acho que estou num momento muito confortável do meu processo criativo, pois consigo aliar minhas ideias, minha forma de ver o mundo com a expressão fotográfica. Então é muito natural para mim poder colocar em fotografias a verdade de como eu realmente sinto as coisas, podendo me comunicar com o outro... E em relação ao Jacintinho, é dialogando com novas formas de explorar e de retratar a cidade que eu acabo me conhecendo mais também, descobrindo novos lados não só da cidade, como de mim mesmo.

Com "Expresso Jacintinho" você consegue retratar o bairro do Jacintinho sem abordar os elementos estereotipados da pobreza e violência, e de uma maneira - diria - até universal, sem trazer muitos elementos visuais reconhecíveis que caracterizem aquelas paisagens como sendo exclusivas do bairro: Do mesmo modo que, por exemplo, a foto da placa poderia ser de qualquer bairro de Maceió, ela poderia ser também de um bairro de São Paulo ou do Acre. É certo dizer que houve a intenção de mostrar o bairro de uma maneira impessoal e universal? Por qual motivo você escolheu essa abordagem? Por que você preferiu não fotografar paisagens mais características do bairro?
Bom, há sim nas fotografias muitas paisagens do bairro, como os mirantes, a Cleto Campelo... Mas, de forma geral, é isso aí que você falou mesmo. O Carlos, um amigo que é morador do Jacintinho, sempre fala que a Cleto Campelo, a rua principal do Jaça, é como aquela cidade chinesa, Bombaim. Quer dizer: em toda cidade, todo país, tem um lugar como o Jacintinho, um lugar onde se aglomeram muitas pessoas, de comércio intenso... E de fato, eu não quis ressaltar mesmo a miséria do local, os jornais, a mídia em geral já o faz demais. Mas pobreza e miséria existem em todo canto e mesmo na Ponta Verde ou Pajuçara, você sente o peso da pobreza, é que as pessoas preferem não enxergar, do mesmo modo, obviamente que o Jacintinho também não se resume a pobreza e violência, esse é o foco do ensaio: vamos ver o que o jacintinho tem além do que é normalmente propagado.

Cores do Jacintinho sob olhar do artista - Foto de Diogo Braz

Pergunta de praxe: Como é trabalhar com fotografia artística em Alagoas? Como você enxerga esse campo de produção em nosso estado?
Há grandes fotógrafos aqui, outros saíram e foram tentar a sorte em outro lugar, porque é lugar comum afirmar que não dá para viver somente através de arte aqui em Maceió, alguns trabalham em jornais como fotojornalistas.. Para mim, atualmente fotografar é um prazer, eu necessito me expressar de algumas formas e a fotografia, como já disse antes, é uma forma de expressão em que eu ponho muito do que sou. Quero também fazer uma pós-graduação nessa área, pois também me interessa a teoria envolvida com a fotografia. Enfim, no que diz respeito ao cenário da fotografia artística em Alagoas, no geral eu tenho visto trabalhos muito interessantes, além de novos espaços dedicados a exposição, como o Linda Mascarenhas, que estão surgindo e que estão abrigando essa leva de novos artistas. De modo que vejo com muita satisfação o momento atual da fotografia alagoana.

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