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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Leshjae apresenta Vurma

Cultura cigana é destaque em espetáculo de dança no Linda Mascarenhas

Diogo Braz

                Às vezes, um simples gesto é capaz de guardar muita informação em si. Ao observar um número de dança, não se deve levar em conta somente os movimentos coreografados, a sincronia com a música. A plasticidade dos gestos é encantadora, ainda mais quando é uma forma de expressar uma cultura, a história e os costumes de um povo. No dia 10 de dezembro, no Espaço Cultural Linda Mascarenhas, o grupo Leshjae realizou, com apoio do Instituto Zumbi dos Palmares, o espetáculo Vurma, justamente com a missão de desmitificar um pouco a cultura cigana, uma cultura milenar que ainda resiste, forte, em um mundo que insiste em lhe enxergar sob o véu do preconceito.
                O Leshjae tem quatro anos de existência e baseia suas atividades nos costumes e tradições ciganas, uma forma de conscientizar o público geral sobre esse povo. “O preconceito ainda é grande. Pra se ter ideia, tem gente que acha que não existe cigano em Alagoas. Então a gente veio aqui mostrar que existe e com uma cultura única, que tem mais de cinco mil anos de história, então não mostrar isso para as pessoas, seria um erro brutal. Sem falar que a arte é uma boa maneira de combater o preconceito”, explica Ruiter Djurdjevjch, membro do grupo Leshjae.


Leshjae posa ao final do espetáculo - Foto de Diogo Braz

Por meio da dança, o Leshjae consegue dar uma boa amostra de manifestações culturais, como vestimenta, música, folclore, tradições sociais... Em Vurma – que significa “Sinais”, na língua cigana – , o grupo levou a plateia a uma viagem pelas danças dos ciganos da Europa, África, Ásia e seu reflexo cultural nos ciganos brasileiros. Dividido em números, que mostravam a dança característica de cada país, pode-se perceber a grande amplitude da cultura cigana e o seu compartilhamento por ciganos ao redor do mundo. Todos os dançarinos mostraram boa desenvoltura no palco, arrancando aplausos da plateia ao final de cada número. A dançarina Anne Djurdjevjch explica como se deu o processo de criação de Vurma. “Esse espetáculo é um sonho. A gente sempre quis, através da dança, contar a história desde a Índia até chegar aqui no Brasil. Então a gente começou a fazer um grande trabalho de pesquisa e fomos montando as coreografias aos poucos, mostrando aos poucos, e a gente foi percebendo que tinha uma aceitação, que era um trabalho diferente e que no final nos deu muito orgulho”, analisa.


Música ao vivo deu mais brilho ao espetáculo - Foto de Diogo Braz

O grupo também desenvolve um trabalho musical interessante, não apenas executando tradicionais canções ciganas, mas trabalhando atrativas composições próprias, que levaram o público a bater os pés e as mãos no ritmo dos violões e percussão. Na metade final de Vurma, uma parte do Leshjae executou essas canções ao vivo para que as dançarinas pudessem encantar a plateia com suas coreografias. Com certeza, a música ao vivo foi um elemento que deu mais tempero ao espetáculo.
Outro ponto importante foi o fato do Leshjae ter trazido ao hall do Espaço Cultural Linda Mascarenhas, um grupo autêntico de ciganos de um acampamento da cidade de Carneiros, no interior de Alagoas. A intenção, segundo Ruiter Djurdjevjch, foi o de intercâmbio cultural. “Nem mesmo dentro dos acampamentos se vê esse tipo de trabalho. Isso é uma coisa que nós estamos tentando levar para lá, mas tudo sem recursos fica complicado de se promover. E o Leshjae está junto como o projeto Amarudem (nossa pátria), que visa levar de volta a cultura cigana de raiz – com a música, a dança, o artesanato, a poesia, o idioma, que está se perdendo – para dentro dos acampamentos, porque hoje em dia a Globalização está destruindo um pouco a nossa cultura”, avalia. Karol Valença, membro do Leshjae, explicou as atividades que aconteceram no hall do Linda Mascarenhas “Estamos  com uma tenda onde as ciganas de Carneiros estão lendo as mãos das pessoas: é uma forma de divulgá-las e de poder ajudá-las também com algum recurso. Estamos vendendo alguns produtos de artesanato, paar que as pessoas possam conhecer o trabalho cigano”, explica.


Atividades no hall ajudaram a divulgar a cultura cigana - Foto de Diogo Braz

As ciganas de Carneiros participaram lendo a sorte de quem quisesse, no hall do espaço. A cigana Rosa da Silva, falou um pouco sobre o dia a dia no acampamento. “A estrutura é muito precária, a gente se vira como dá: negociar, vender rádio, relógio, botar dinheiro a juros, vende uma coisa no mês e recebe no outro, a gente também lê a mão”. Sobre o espetáculo, Rosa ficou encantada “Foi muito bom, eu achei muito bonito. Quem sabe se na próxima a gente dança também...”, brinca a cigana.
O público também aprovou o espetáculo. A estudante de Enfermage Fernanda Goes gostou da proposta do espetáculo: “Eu adorei, achei muito bonito, muito interessante essa proposta de conhecer novas culturas, de nos enriquecer culturalmente com novidades de outros povos”. O engenheiro Nelson Calazans elogiou os aspectos técnicos do grupo: “O espetáculo foi muito bom. Eu conheço outros grupos de dança e o Leshjae mostrou realmente ter uma ótima qualidade”, afirmou.


Leshjae encantando a plateia - Foto de Diogo Braz

A arte é uma forma eficiente de apresentar uma cultura, e sabe-se que somente pelo conhecimento é que derruba-se os preconceitos. Sempre que um espetáculo se propõe a mostrar cultura, cidadania, conhecimento, um importante passo é dado na luta contra preconceitos.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Palavra Mínima Júlio Uçá e Luciano José

Clima de amizade tempera a apresentação de Júlio Uçá e Luciano José no Palavra Mínima

Diogo Braz

A arte une, as parcerias estão aí para darem seus testemunhos. É comum ver pessoas com aptidões criativas se unirem para fazer um trabalho artístico, e o Palavra Mínima tem proporcionado encontros desse tipo nas noites de sexta no Espaço Cultural Linda Mascarenhas. Realizado pelo Instituto Zumbi dos Palmares e Cooperativa dos Músicos de Alagoas, o projeto tem o apoio de Secult, FMAC, Sebrae, Mucom e Santorégano, e propões trazer a poesia e a música como uma só expressão. Desta vez, os protagonistas da noite de 9 de dezembro foram os amigos Júlio Uçá e Luciano José. O primeiro responsável pela música e o segundo pela poesia.
Os dois se conhecem há mais de 15 anos. Júlio morava na cidade de Palmeira dos Índios e se mudou para Maceió, enquanto Luciano fez o caminho inverso e hoje mora em Palmeira. O que pode parecer um desencontro os tornou ainda mais próximos: Na sua nova cidade, Luciano casou-se com a prima de Júlio e os artistas então passaram a ser da mesma família. A afinidade e a convivência acabaram por facilitar as parcerias e os projetos em conjunto. Apresentações como esta do Palavra Mínima já haviam acontecido na carreira deles. “Esses nossos encontros, antes de serem encontros pessoais, são encontros de admiradores mesmo: Eu gosto muito do que Júlio produz e ele também gosta do que eu produzo”, explica o poeta, enquanto o cantor completa: “Mas como dizia Toquinho: ‘Se não der pra ser amigo, não tem como ser parceiro’. Graças a Deus eu estou aqui com o Luciano e isto foi uma coisa muito natural, a gente teve a oportunidade de fazer outras coisas dessa natureza e vem sendo melhor a cada vez”, explica.


Amigos entre amigos - Foto de Diogo Braz

A música feita por Júlio tem forte apelo pop, com melodias que grudam em sua cabeça por dias. Conhecido na cidade por suas participações em festivais musicais e por suas apresentações em bares de Maceió, no estilo “voz e violão”, Júlio fez um show intimista e descontraído. Conversou com a plateia, falou sobre as suas canções e cantou com visível alegria, acostumado ao formato, parecia estar na sala de casa, mostrando as composições aos amigos. Ao final da apresentação, o cantor avaliou a sua participação. “Eu tive uma impressão muito positiva do show. Acho que a gente pode mostrar hoje música e poesia como uma mesma expressão e o público compreendeu bem isso. Eu fico feliz por ter participado, só tenho mesmo a agradecer”.


Walter Lima e Júlio Uçá - Foto de Diogo Braz

No palco, Júlio Uçá conta com o auxílio luxuoso do músico Walter Lima, no violão de aço. Os arranjos para dois violões caíram bem em todas as canções, os solos e riffs de Walter não deixaram o público sentir falta de outros instrumentos. Aproveitando a ocasião, o cantor mostrou algumas músicas que vão fazer parte do seu primeiro CD, já em fase de preparação. “O disco está praticamente pronto. Estamos finalizando a captação de voz e instrumentos, pra depois mandar mixar e masterizar. Mas depois do carnaval eu posso assegurar que ele vai estar quentinho, saindo do forno”, adianta o cantor. “A maioria das músicas que eu apresentei hoje, cerca de 70%, já são do disco novo. Algumas músicas dos shows antigos e que são mais conhecidas, como Descolorar e Cabelo de mola, não vão entrar. O disco vai trazer muitas novidades e parte dessas novidades a gente mostrou aqui hoje”, revela Júlio.
Luciano José é um poeta de versos curtos e rasgantes, através das palavras mostra sua visão contundente do mundo. Ele mesmo explicou a sua poesia: “Eu definiria minha produção como um olhar poético no cotidiano. É uma poesia muito livre, totalmente desencanada; Esse último livro que eu fiz é um livro muito largado, descompromissado. É isso, a minha literatura é totalmente diferente da literatura, por exemplo, de um João Cabral de Melo Neto. Aqui você não vai encontrar a ‘poesia cabeça’, você vai encontrar coisa como ‘Recado. Na fila do posto de saúde, a saúde mandou lembranças’, é isso!”, explica o poeta.


Luciano José e sua poesia livre - Foto de Diogo Braz

 Também à vontade no palco, declamou suas poesias sobre a vida e emocionou toda a plateia com seu mais recente poema, um tipo de autoanálise sob a ótica de sua recém-falecida mãe. O poeta selecionou textos que tinham a ver com as canções de seu amigo Júlio Uçá e ambas – poesia e música – serviram como tempero uma da outra, dando uma dinâmica interessante ao espetáculo.  “Pra mim foi interessante porque eu sempre pensei, nesse tempo em que venho fazendo lançamento dos meus livros, em trazer a música para dialogar com a literatura, sem que a literatura perca o seu sentido e sem que a música surja como uma espécie de bengala para a literatura, um ponto de apoio. O Palavra Mínima tem esse mérito de conjugar as duas artes sem o prejuízo de nenhuma das duas. Eu acho que esse momento de interação entre elas e essa possibilidade das duas dialogarem livremente é o ponto positivo do projeto”, elogia o poeta.
Cosme Rogério, outro amigo da dupla, também participou do show, declamando algumas poesias de Luciano José. A voz de locutor e a boa interpretação dos textos fizeram com que a participação de Cosme enriquecesse o espetáculo. “Eu fui aluno do poeta e professor Luciano José e sou amigo de infância de Júlio Uçá, então unimos o útil ao agradável. Eles gostam da maneira que eu declamo e eu tive a honra de participar com eles desta noite, nesse projeto que eu considero importantíssimo para a cultura alagoana, pela oportunidade de mostrar o trabalho de autores diversos, seja na música ou na poesia”, avalia.
O público aprovou o desempenho de Júlio e Luciano. A estudante de Direito Flaviana Azevedo se disse uma admiradora da dupla. “Eu sempre gosto dos eventos em que Júlio participa; sempre que possível, eu estou dentro. Para mim, ele é um grande músico e poeta. Eu também já conhecia o trabalho do Luciano, já tive o prazer de ver o trabalho de Luciano em Palmeira (dos Índios) e também aqui (em Maceió) no Teatro Jofre Soares, e acho muito legal a poesia dele. Eu adoro poesia, adoro arte e acho que Alagoas é muito carente disso; parabéns ao projeto”, elogiou a estudante.
Numa noite descontraída, ao som de palavras musicais e poéticas, o Palavra Mínima vai chegando ao final da sua trajetória, mostrando a amizade das palavras com a música e com a poesia. Faltando um show para o final, o projeto vem fechando o ano com saldo positivo.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Palavra Mínima: Luiz Alberto Machado e Fátima Maia

Luiz Alberto Machado e Fátima Maia revivem dobradinha no Palavra Mínima

Diogo Braz

A cena parecia já ter acontecido: sobre o palco do Espaço Cultural Linda Mascarenhas estavam Luiz Alberto Machado e Fátima Maia, no papel de protagonistas de mais uma noite do Palavra Mínima, projeto do Instituto Zumbi dos Palmares (IZP) e Cooperativa dos Músicos de Alagoas (Comusa), com apoio da Secult, FMAC, Mucom, Sebrae e Santorégano. É verdade que a dupla já havia se apresentado antes pelo projeto, mas apesar de semelhante, a cena agora traz uma pequena novidade: Se da primeira vez Luiz Alberto ficou responsável pela poesia e Fátima pela Música, desta vez, Fátima mostrou um pouco da sua produção literária e Luiz a sua produção musical.
Luiz Alberto e Fátima Maia: dupla conhecida do público - Foto de Diogo Braz

O ponto de interseção da carreira dos dois está no universo infantil: ambos desenvolvem um trabalho artístico direcionado às crianças e foi nesse cenário que a parceria se afinou, até que chegasse a duas edições no Palavra Mínima, sendo a segunda na noite de 02 de dezembro de 2011.
Fátima Maia é uma poetiza de versos com uma identidade nordestina muito forte, o que facilita ao público identificar-se com o que ela escreve. Fátima encontra inspiração no cotidiano, na sua visão de mundo e, talvez por estar habituada a trabalhar com a “contação” de histórias infantis, adquiriu um ritmo interessante para declamar seus versos adultos. Ela declarou se sentir mais à vontade nesta edição, no papel de declamadora. “Eu acho que fiquei mais solta dessa vez do que quando fiz as músicas, não foi? Eu achei maravilhoso, a reação do público foi ótima. Realmente eu não pensei nunca que estaria no palco fazendo minha poesia, e esse projeto é uma das poucas oportunidades para a gente mostrar nossa produção. Isso é super valoroso, eu fiquei maravilhada”, avaliou Fátima. A poetiza também pode mostrar um pouco do seu trabalho infantil, numa parte do espetáculo onde cantou/contou duas historinhas, nos moldes em que costuma fazer para os pequenos.
Fátima Maia com os versos à mão - Foto de Diogo Braz
Luiz Alberto subiu ao palco para mostrar a sua faceta romântica. Em mais de duas horas de música, Luiz cantou o amor, em suas diversas versões e pontos de vista e explicou que a escolha dessa temática tem, inclusive, uma função pedagógica. “Faz parte de um projeto, em que eu quero colocar a discussão do amor em outros parâmetros, porque a valorização do ser humano passa por essa contingência da delicadeza e pela condição do amor, pela forma do tratamento... As pessoas têm de ter a educação para ter uma vida a dois”, analisa Luiz Alberto. Apesar de recusar o rótulo de intelectual, o cantor produz uma música “cabeça”, cheia de referências ao pensamento de filósofos e antropólogos. “Novamente digo que é uma série de ‘amostramentos’”, brinca Luiz. “Hoje eu inventei de ser cantor e pude interpretar as minhas canções. Foi um momento muito lindo, e esse projeto que a Comusa e o IZP estão desenvolvendo nos dá a oportunidade de mostrar o nosso trabalho. É um acontecimento altamente importante”, avalia o cantor.

Luiz Alberto em sua versão romântica - Foto de Diogo Braz

O público parece concordar com esse raciocínio sobre a importância do projeto. O compositor Benedito Pontes acha que o Palavra Mínima é importante por ser uma oportunidade para descobrir talentos escondidos. “Alagoas tem dessas coisas: A gente tem os valores e esses valores não se tornam conhecidos, muitas vezes, por falta de oportunidade. Às vezes, eles se projetam até fora do estado, mas aqui... Hoje eu tive a chance de conhecer o trabalho da Fátima, que eu não conhecia, e foi uma grata surpresa. Esse projeto oportuniza que os talentos de Alagoas sejam conhecidos e que a nossa sociedade acorde para valorizar esses talentos. Eu saio daqui enriquecido”, elogiou. A pianista clássica Oriêta Feijó deseja que os artistas tenham o seu merecido reconhecimento “Eu fiquei sensibilizada por tudo que vi hoje. Gostei demais, o espetáculo me tocou bastante, espero que todos tenham muito sucesso pela frente”, torce.
Quem também aprovou foi o poeta cordelista Jorge Calheiros, que esteve presente prestigiando a dupla. “Eu já conhecia o Luiz Alberto, é um grande profissional, um artista, gosto muito das músicas dele. A Fátima eu conheci hoje e me agradei muito das poesias dela. Foi muito legal, pra mim foi ótimo, nunca mais tinha assistido um show pra gostar como esse de hoje”, elogiou.

Público aprova mais uma edição do Palavra Mínima - Foto de Diogo Braz

Engrossando a fila dos artistas na plateia, o músico Gama Junior elogiou o projeto. “É uma maravilha essa mistura de música com poesia, o que, na minha opinião, é uma coisa só. Isso traz muita paz pro ambiente, deixa todo mundo mais envolvido com a música, todos os elementos numa mesma harmonia. Foi uma noite divinal”, analisou. O músico Jurandir Bozo também se mostrou um incentivador do Palavra Mínima. “É um projeto importante porque abre mais um espaço para a arte autoral, já que a gente tem perdido esses espaços e eles são valiosos. A gente sabe que há um segmento alternativo que ainda tem um público formado por universitários e que busca esse universo do autoral, do criativo, da identidade local, mesmo que cosmopolita, então abre-se esse leque do alternativo. Mas a galera que faz uma música mais convencional e autoral fica meio sem espaço. Por isso, é muito importante trabalhar com essa música, a poesia e a poesia musicada; é um projeto formador de público e o caminho é esse: tem de se pensar projetos assim, para que eles sejam encaminhados por editais, por leis, pro Estado agraciar e abraçar essas iniciativas”, analisou Bozo.
Chegado o fim de mais uma edição, o projeto Palavra Mínima parece ter ganhado fôlego em sua reta final, restando agora dois espetáculos para seu desfecho, seguindo seu caminho bem sucedido até agora. 

sábado, 17 de dezembro de 2011

Palavra Mínima: Irina Costa e Gabriela Costa

Música e poesia falam da guerra e esperança em noite cheia de emoção

Diogo Braz

O folheto dizia que “a palavra de ordem era fugir”, descrevendo um tempo passado onde o horror da guerra assolava famílias e as faziam partir da terra onde nasceram e criaram raízes. Hoje, em outro solo, Gabriela e Irina Costa fazem da arte a sua palavra de ordem... E não se tem como fugir da arte!
No dia 25 de novembro de 2011, o Instituto Zumbi dos Palmares e a Comusa – com o apoio de Secult, FMAC, Sebrae, Mucom e Santorégano – realizaram no Espaço Cultural Linda Mascarenhas mais uma etapa do projeto Palavra Mínima, trazendo dessa vez o espetáculo Humbiumbi, com a poesia da matriarca Gabriela Costa e a música de sua filha Irina Costa.


Mãe e filha emocionam plateia com seu Humbiumbi - Foto de Diogo Braz

O espetáculo teve a proposta de contar, através da arte, a emocionante história de vida de Gabriela Costa e sua família. Vítimas da guerra que assombrou Angola, os integrantes da família Costa cruzaram o Atlântico para achar um novo lar em Maceió, mas as lembranças de um passado marcado pela guerra ainda são fortes e, transpostas para textos e músicas, deram uma dimensão mais profunda ao espetáculo, que foi dividido em quatro partes (Era uma vez a vida; Sobre as águas da memória atlântica; Guerra; e Começar de novo), mas preservou o mesmo clima durante toda a sua duração. Além disso, a clara satisfação de mãe e filha em dividirem o palco deu um brilho a mais ao show. Irina elogiou a estreia da mãe nos palcos “Foi uma experiência impressionante e ela demonstrou mais uma vez ser uma grande mulher, pois ela não tinha enfrentado o palco dessa maneira, mas ela reinou ali. E ter ela ao meu lado no palco foi ótimo, foi a obra completa, como ela mesma diz”, falou.
Irina Costa tem uma voz reconhecida e elogiada no meio musical da cidade. A cantora tem forte expressão no palco, suas interpretações cativam pela emoção e o tempero lusitano no timbre da voz e pronúncia das palavras: talvez por isso se destaque entre as cantoras de fado do estado. E a parcela musical de Humbiumbi seguiu esse clima lusitano, com alguns elementos africanos. Acompanhada pelos ótimos músicos Wilbert Fialho (violão e direção musical), Juliano Gomes (teclado) e Wilson Miranda (percussão), Irina cantou um repertório mais calmo, canções que estavam ligadas às experiências vividas pela família nessa fuga em busca de novos horizontes. “Nós tínhamos um repertório base e mamãe é que escolheu, entre aquilo que eu mostrei, as músicas que tivessem a ver com o texto dela e algumas vezes ela misturou o texto para combinar com as músicas que ela queria que eu cantasse. E lógico, tudo tem a ver com a nossa história, tem a ver com a guerra, com o contexto do espetáculo”, revelou Irina.


Irina Costa e sua interpretação carregada de emoção - Foto de  Diogo Braz

O desempenho da cantora foi aprovado por uma plateia formada por gente como a cantora Fernanda Guimarães, que elogiou: “Eu acho que a Irina captou maravilhosamente bem a emoção que foi essa transição, essa mudança de nação, essas idas e vindas de Angola e Brasil, conseguindo emocionar a todos, com as músicas escolhidas, que foram perfeitas, com os poemas; eu mesma chorei duas vezes durante o show e me emocionei várias vezes. O show foi lindo, eu espero que tenha novamente pra mais gente poder ver e mais gente poder compartilhar com elas essa alegria”, torce Fernanda.
A pitada literária da noite ficou por conta de textos poéticos de Gabriela Costa e poesias de Maurício de Macedo, Ascenso Ferreira, Antônio Neto, Fernando Fiúza e João Apolinário. Eram textos que falavam dessa experiência emocional forte da fuga, da saudade, do medo, da esperança, da vida. Em alguns momentos a emoção era visível nos olhos de mãe e filha, o que conectou a plateia às duas durante todo o tempo do espetáculo. Para a professora universitária Eliana Kefalas essas experiências deram origem a um espetáculo para se guardar na memória. “Eu achei fantástico, extremamente sensível, o texto da professora Gabriela é incrível, eu já tinha conversado com ela sobre isso, mas uma coisa é ‘falar sobre’ e outra coisa é ‘ouvir as palavras’... E a elaboração do trabalho como um todo foi bastante sofisticada e inesquecível. Estão de parabéns”, elogiou. A escritora Gabriela Costa explicou a emoção de transpor a sua história de vida para os palcos. “O engraçado é que, durante os ensaios, em nenhum momento eu me emocionei, mas hoje quando vi o público meu coração apertou mesmo, quando falei da guerra, da sensação de ter de fugir o tempo todo, de pegar qualquer coisa no meio da noite e mudar de casa... realmente mexeu comigo ao falar sobre essas coisas em frente ao público. Mas no fim creio que deu tudo certo”, analisa.


Gabriela Costa e sua emocionante busca por esperança - Foto de Diogo Braz

Para a cantora Carolina Leopardi, o show ofereceu boas emoções ao público. “Foi um show lindo, emocionante. Eu fico muito feliz por ter assistido. Todo o espetáculo teve muita delicadeza e sensibilidade. Está tudo muito bem medido e ensaiado, mas ao mesmo tempo espontâneo, dá pra ver que é uma coisa que vem do coração, então faz com que todo mundo que assista fique feliz de certa maneira”. A enfermeira Maria Emília Dantas também aprovou o espetáculo. “Eu achei o show maravilhoso, as duas estão de parabéns. Até mesmo para quem já conhecia um pouco da história de vida das duas, foi muito interessante vê-la ser contada assim nos palcos, com essa mistura de música e poesia. Foi um show lindo, muito emocionante, foi maravilhoso”, avalia Emília.


Celebração ao final do show - Foto de Diogo Braz

O espetáculo, que teve direção artística do ator Carlos Alberto Barros, contou ainda com interações teatrais de Gustavo Gomes e Larissa Fontes, ambos trazendo ótimas interpretações dos textos e poesias. A participação dos atores ajudou a passar para o público um pouco da experiência dessas duas mulheres. Na voz e expressões de Larissa e Gustavo, os textos ganharam cores mais fortes, mais percebíveis ao público, somando mais emoção a Humbiumbi. Além disso, houve também a participação do grupo Baque Alagoano, fechando o show numa celebração a essa história de esperança, de superação, como uma homenagem aos ancestrais e um sopro de alegria para o futuro.  

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Divulgação: Agenda dezembro

Espaço Linda Mascarenhas tem agenda lotada para o fim do ano

Diogo Braz

O ano de 2011 vem chegando ao fim e, antes que as retrospectivas comecem a aparecer em todos os locais, o Espaço Cultural Linda Mascarenhas faz um breve balanço de suas atividades em 2011 e anuncia o que vem por aí na programação do último mês do ano.


Espaço movimentado já virou cena comum - Foto de divulgação

Dezembro promete encerrar o ano no mesmo clima de agitação. O Projeto Palavra Mínima chega a sua reta final com dois shows: Dia 09, com Júlio Uça e Luciano José, e o outro no dia 16, com Gal e Ludmila Monteiro. O projeto é fruto de uma parceria entre o Instituto Zumbi dos Palmares e Cooperativa dos Músicos de Alagoas e reúne sempre um expoente da música e outro da poesia. As atividades começam sempre às 20 horas.
Para quem gosta de dança, a opção é o espetáculo de Dança Cigana com o grupo LESHJAE que acontecerá no sábado, 10, às 20 horas.
Na quinta-feira, dia 15 de dezembro, às 20 horas, será a vez da cantora Luciana Lima fazer o show de lançamento do seu primeiro disco Caneta, Papel e Coração e mostrar um pouco do seu repertório autoral.
No sábado, dia 17 de dezembro, às 20 horas, a banda Dona Encrenca vai animar o público com o seu Pop-Rock autoral de ótima qualidade. A banda já se apresentou no palco do Linda Mascarenhas este ano, pelo Projeto Palco Aberto e agradou o público na ocasião.
Quem é fã do Rei Roberto Carlos pode ir se programando para conferir na segunda, dia 19 de dezembro, o show do cover alagoano do cantor, Sandro RCC. A apresentação pretende preencher o vazio daqueles que esperavam assistir ao tradicional especial de fim de ano do Rei, que não será exibido este ano.


Gal Monteiro apresenta o programa Vida de Artista - Foto de divulgação

Ainda haverá a jornada de debates e palestras da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental de Alagoas que acontecerá na semana do natal, e a transmissão ao vivo, dia 30, pela rádio do último programa Vida de Artista do ano. O Vida de Artista é um programa sobre a arte alagoana e chega ao Linda em sua versão para auditório, apresentado pela jornalista Gal Monteiro, transmitido ao vivo pela rádio educativa FM, a partir das 15 horas.


Expresso Jacintinho de Vicente Moliterno, em cartaz até 22/12 - Foto de Diogo Braz


Além disso, está em cartaz até o dia 22 de dezembro a mostra Expresso Jacintinho, do fotógrafo Vicente Moliterno, mostrando a visão do artista sobre o bairro do Jacintinho.
Seja qual for a sua opção, vale a pena frequentar o espaço e absorver um pouco da cultura alagoana neste final de ano. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Boletim interno IZP - Espaço Cultural Linda Mascarenhas

Espaço Linda Mascarenhas renasce e se torna local de movimentação cultural 

Diogo Braz

      O Espaço Cultural Linda Mascarenhas vem se destacando como um dos locais com maior movimentação cultural de Maceió. Se antigamente o espaço era um reduto artístico adormecido no bairro do Farol, hoje em dia o Linda Mascarenhas é ponto de encontro daqueles que desejam ser banhados em cultura, seja pelo teatro, música, debates ou exposições artísticas. 


Espaço lotado em show do Projeto Palavra Mínima - Foto de Diogo Braz

     A movimentação é intensa: Em toda semana há espetáculos, sala lotada e críticas positivas. A agenda do Espaço Linda não para e acumula ações principalmente de fomento artístico e formação de público, sem preconceitos de estilos ou favorecimentos pessoais: públicos e realizadores de todos os credos artísticos têm a oportunidade de ver e/ou fazer algum espetáculo ou atividade de seu agrado no Espaço, seja lançamento de livro de poesia; ciclos de palestras e debates; shows de Heavy Metal, Rock Independente, MPB, Forró, Hip Hop, música gospel; apresentação de cultura popular; exposições fotográficas ou Vernissages; peças de teatro tradicionais e contemporâneas; simpósios; oficinas e mostras de cinema; Instalações visuais; performances; residência artística; transmissão de programas de rádio; oficinas de artes... Enfim, o Espaço Cultural Linda Mascarenhas é hoje um local que agrega pessoas interessadas em produzir e prestigiar cultura.


Oficina do Projeto Música em Pauta com alunos do Cepa - Foto de Joelle Malta

     O maior mérito do renascimento do Linda Mascarenhas dentro do cenário de Maceió é do seu Diretor, o músico Júnior Almeida, que enxergou o Linda como ele é: um espaço público que deve ter as portas abertas para quem estiver disposto a produzir arte de qualidade. Com essa simples filosofia de utilizar o Espaço para o seu verdadeiro fim, o IZP vem firmando parcerias, apoiando e realizando projetos e espetáculos que tiraram o Linda Mascarenhas do marasmo e que destaca o Instituto na posição de promotor de cultura, como os recentes projetos Palavra Mínima (em parceria com a Comusa), que traz a união da música autoral alagoana com a poesia; e o Projeto Música em Pauta (em parceria com o Sesc-AL), que propiciou uma série de oficinas musicais, bem como palestras e apresentações para alunos do Cepa; o que também vem sendo feito em conjunto com o programa Vida de Artista, da TVE e Educativa FM, quando são oferecidas diversas oficinas para os alunos do referido complexo escolar. 
     Aos poucos, o Espaço Linda vem sendo procurado também por artistas de outros estados. Já se apresentaram em seu palco músicos de São Paulo (Holger), Pernambuco (Gandahrva, Tem Radio), Bahia (A.S.U.), Paraíba (Zeferina Bomba), e peças de São Paulo, como Números, que esteve em cartaz esta semana.


Holger (SP), em apresentação pelas prévias do Festival Lab - Foto de Diogo Braz

     Com uma filosofia de trabalho simples e democrática, o Espaço Cultural Linda Mascarenhas vem desempenhando um trabalho de agitação cultural essencial para a cidade de Maceió, tornando-se num local de intensa movimentação artística, o que já começa a ser reconhecido pelo público, que tem cada vez mais comparecido às apresentações, e pelos artistas, que procuram cada vez mais realizar suas atividades no Linda.  

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Números

Números para sorrir
Diogo Braz

Um simples gesto com as mãos, uma queda encenada no melhor estilo da comédia pastelão ainda são bem eficientes no momento de fazer sorrir. Mesmo em tempos da piada mais elaborada, dos stand-ups e de um público cada vez mais exigente, um sorriso no palco parece sempre conseguir uma reciprocidade na plateia.
Realizado pelo Instituto Zumbi dos Palmares em parceria com a Cia. Os Geraldos, de Campinas-SP, o espetáculo Números segue por uma linha próxima ao circo, ao teatro mambembe e às antigas comédias, onde se jogavam tortas nos rostos dos humoristas e se arrancava mais sorrisos pela expressão facial e pelos trejeitos corporais que pelo texto.


O texto é apenas o polimento da ação - Foto de Diogo Braz

Em duas apresentações no Espaço Linda Mascarenhas (dias 30/11 e 01/12), a Cia. Os Geraldos conseguiu levar um bom público para conferir o espetáculo Números, que tem mais de três anos de existência e já passou por mais de 25 cidades no Brasil, e em países como o Peru, sempre apresentando uma fórmula simples de cativar a plateia. São personagens caricatos, caracterizados como palhaços, que apresentam números circenses num cenário minimalista e funcional. Números acaba tendo forte apelo entre crianças e adultos com disposições a um programa leve, de comédia menos escrachada. “Este espetáculo surgiu do desejo de falar para um público que fosse ‘geral’, que não tivesse nenhuma restrição cultural ou econômica. Nós (a companhia) somos egressos da academia, da Unicamp, então nós percebemos que o fazemos tem muito da erudição acadêmica, e nós não queríamos que isso ficasse aí, nós queríamos trabalhar com essas ferramentas que nós conquistamos com a nossa formação, mas também atingir um público popular. Então aí a comédia, a tradição circense, as coisas foram se juntando e no final essa mistura foi dando um sentido ao espetáculo”, explicou o ator Douglas Novais, que interpreta o peculiar mestre de cerimônias Cícero, que entrecorta os números e cenas com seu acordeom incansável, remetendo o público a realejos e ao universo dos pequenos circos e espetáculos andarilhos.


Números que fizeram a alegria do público - Foto de Diogo Braz

O público recebeu bem a proposta de imersão nesse universo e mergulhou no espetáculo, aplaudindo de pé os jovens atores. A fotógrafa Jéssyka Soares elogiou: “Eu achei muito divertido, criativo e inteligente”, avaliou. A mestranda Manuela Kaspary gostou tanto que recomenda que as pessoas levem suas crianças para verem o espetáculo. “Eu achei ótimo, foi super divertido. É um espetáculo de ótima qualidade, do som à escolha dos números. Mesmo sem ser direcionado totalmente pras crianças, é muito alegre, alcança todos os públicos. Eu trouxe o meu filho e recomendo que as pessoas tragam os seus, ele adorou!”, aconselha. A psicóloga Cristina de Macedo ressaltou a leveza artística o grande trunfo da peça. “Eu acho que o que os meninos fizeram é arte, porque você esquece do peso da existência, como diz Ítalo Calvino, e voa, voa com uma leveza... Eles conseguiram colocar o cômico com pitadas de amor e ternura, foi muito bonito o espetáculo, está lindo!”, elogiou.


Cia. Os Geraldos para o público geral - Foto de Diogo Braz

Para o grupo, o contato com os maceioenses também foi muito positivo. “Eu acho que esse espetáculo tem a cara do público nordestino, que é um público evidentemente espontâneo, que quer e sabe se divertir. Então eu acho que poder apresentar o espetáculo aqui foi um brinde a essa alegria, que tem um sentido, que não é uma comédia rasa ou forçada. Foi muito bom encontrar esse público de Maceió, e a gente estava muito ansioso pra encontrar esse público depois de passar por tantas cidades do interior e outros países. Faltava aqui pra gente, portanto foi muito especial e marcante na nossa trajetória”, comemora Douglas.


Público aplaudiu de pé - Foto de Diogo Braz

A qualquer momento, o sorriso sempre deve ser encarado como um ótimo convite para a alma, seja através de um diálogo, uma piada ou pela simplicidade de outro sorriso.

Entrevista: Vicente Moliterno

Realidade através das lentes: Vicente Moliterno e seu Expresso Jacintinho
Diogo Braz

O jovem fotógrafo Vicente Moliterno é, antes de tudo, um artista fotográfico. Suas imagens carregam mais que aquelas famosas mil palavras; carregam sentimentos, sensações e emoções próprias de peças de arte. Cada clique é como que uma pincelada em sua composição analógica da realidade. Como Trabalho de Conclusão de Curso, Vicente resolveu mostrar ao público a visão que tem do bairro mais populoso de Maceió, o Jacintinho, e inaugurou a exposição “Expresso Jacintinho”, que ficará em cartaz gratuitamente no Espaço Cultural Linda Mascarenhas até o dia 22 de dezembro.
O fotógrafo concedeu uma entrevista ao Blog do Espaço Cultural Linda Mascarenhas, compartilhando um pouco do seu olhar sobre o Jacintinho, fotografia, técnicas e arte. Vale a pena ler e conferir a exposição.

Vicente Moliterno e sua obra artística - Foto de Diogo Braz

 Como foi que nasceu o conceito para realizar as fotos de "Expresso Jacintinho"?
As coisas foram acontecendo naturalmente desde quando resolvi trabalhar o bairro através das fotos. Primeiro eu comecei com a câmera digital, mas fui percebendo que as fotos que eu mais gostava eram aquelas onde predominavam efeitos que geravam sobreposições, como os de espelhos de vitrines, de fato as que eu mais gostava eram as menos nítidas, as mais artísticas, por assim dizer, e daí quando comprei a câmera analógica e percebi que poderia fazer aqueles e outros muitos efeitos, principalmente o de sobreposição de imagens. Percebi também que poderia explorar bastante as cores e contrastes através dos diferentes filmes que poderia usar... Foi aí ficou claro para mim que a fotografia analógica, e o que ela proporcionava, seria a melhor forma de retratar o bairro do Jacintinho, que para mim exalava cores vivas e, acima de tudo, simultaneidade de acontecimentos.

Por que você escolheu a técnica de sobreposição de imagens na criação das fotos para a exposição? 
Através dessa técnica eu consegui retratar melhor as sensações que vivenciei ao percorrer o bairro. Para mim é impressionante como ali, num pequeno espaço, acontece tanta coisa ao mesmo tempo. Nos chamados "horários de pico" o que se nota é um fluxo interminável de automóveis, motos, bicicletas, pessoas, animais... São muitos estímulos aos sentidos, e eu achei que se sobrepusesse vários acontecimentos numa só imagem poderia expressar melhor o que seria estar "imerso" no Jacintinho.

Como o bairro do Jacintinho inspirou a sua produção?
O bairro era para mim até então desconhecido, eu nunca havia andado por ali até o começo do trabalho, e pra mim foi muito bom conhecer o bairro de forma gradual, ir sentindo mesmo as suas ruas, as suas pessoas. Hoje é um lugar que eu nunca deixo de ir, já criei um sentimento de pertencimento àquele lugar. Além do mais, eu tenho esse gosto por fotografar a cidade, sobretudo partes da cidade que são marginalizadas, que ficam longe dos cartões postais que geralmente são divulgados, mas que eu acho que guardam muito mais da cidade e do que somos.

Público confere o Expresso Jacintinho em noite de estreia - Foto de Diogo Braz

Nem sempre é fácil olhar para a foto de um lugar caótico e enxergar a beleza, parece que os olhos das pessoas estão habituados a enxergar a beleza padronizada de paisagens com um certo senso de leveza e organização, o que muitas vezes não nos retrata como sociedade. Como fotógrafo, como é que você lida com esse estranhamento do público em relação ao que a sociedade é mas não quer enxergar? Como você lida com essa questão de tornar atrativa uma foto de algo que a maioria das pessoas prefere não encarar?
Eu acho que as minhas fotos estão meio que num limiar entre esse olhar de leveza que você diz estar presente na maioria das fotos de paisagens, e esse outro olhar, que aponta para uma "denúncia" daquilo que a sociedade não parece querer enxergar. As minhas fotos, segundo o meu ponto de vista, não se enquadrariam nem como paisagens de cartões-postais tradicionais, nem como fotografias como as consideradas "engajadas", aquela fotografia que faz denúncia social... Desde o início, o que eu tinha em mente era poder trazer às pessoas um outro olhar sobre o bairro, e através desse "estranhamento", tentar fazer com que as pessoas parassem para pensar ou refletir sobre aquela realidade. Nem o belo pelo belo me interessava, nem somente o documento dito "engajado"... Eu queria flutuar nesses dois âmbitos, entende? Creio muito que a visão é por onde podem ocorrer muitas transformações, e mudar o modo como tradicionalmente enxergamos, questionar a perspectiva estabelecida, a ordem em que as coisas nos são apresentadas visualmente, isso me interessa bastante. 

A exposição fica em cartaz até 22/12 no Espaço Linda - Foto de Diogo Braz


Como você analisa o seu trabalho até a exposição? Digo: Como você enxerga a sua caminhada dentro da fotografia até chegar a este momento presente?
Acho que estou num momento muito confortável do meu processo criativo, pois consigo aliar minhas ideias, minha forma de ver o mundo com a expressão fotográfica. Então é muito natural para mim poder colocar em fotografias a verdade de como eu realmente sinto as coisas, podendo me comunicar com o outro... E em relação ao Jacintinho, é dialogando com novas formas de explorar e de retratar a cidade que eu acabo me conhecendo mais também, descobrindo novos lados não só da cidade, como de mim mesmo.

Com "Expresso Jacintinho" você consegue retratar o bairro do Jacintinho sem abordar os elementos estereotipados da pobreza e violência, e de uma maneira - diria - até universal, sem trazer muitos elementos visuais reconhecíveis que caracterizem aquelas paisagens como sendo exclusivas do bairro: Do mesmo modo que, por exemplo, a foto da placa poderia ser de qualquer bairro de Maceió, ela poderia ser também de um bairro de São Paulo ou do Acre. É certo dizer que houve a intenção de mostrar o bairro de uma maneira impessoal e universal? Por qual motivo você escolheu essa abordagem? Por que você preferiu não fotografar paisagens mais características do bairro?
Bom, há sim nas fotografias muitas paisagens do bairro, como os mirantes, a Cleto Campelo... Mas, de forma geral, é isso aí que você falou mesmo. O Carlos, um amigo que é morador do Jacintinho, sempre fala que a Cleto Campelo, a rua principal do Jaça, é como aquela cidade chinesa, Bombaim. Quer dizer: em toda cidade, todo país, tem um lugar como o Jacintinho, um lugar onde se aglomeram muitas pessoas, de comércio intenso... E de fato, eu não quis ressaltar mesmo a miséria do local, os jornais, a mídia em geral já o faz demais. Mas pobreza e miséria existem em todo canto e mesmo na Ponta Verde ou Pajuçara, você sente o peso da pobreza, é que as pessoas preferem não enxergar, do mesmo modo, obviamente que o Jacintinho também não se resume a pobreza e violência, esse é o foco do ensaio: vamos ver o que o jacintinho tem além do que é normalmente propagado.

Cores do Jacintinho sob olhar do artista - Foto de Diogo Braz

Pergunta de praxe: Como é trabalhar com fotografia artística em Alagoas? Como você enxerga esse campo de produção em nosso estado?
Há grandes fotógrafos aqui, outros saíram e foram tentar a sorte em outro lugar, porque é lugar comum afirmar que não dá para viver somente através de arte aqui em Maceió, alguns trabalham em jornais como fotojornalistas.. Para mim, atualmente fotografar é um prazer, eu necessito me expressar de algumas formas e a fotografia, como já disse antes, é uma forma de expressão em que eu ponho muito do que sou. Quero também fazer uma pós-graduação nessa área, pois também me interessa a teoria envolvida com a fotografia. Enfim, no que diz respeito ao cenário da fotografia artística em Alagoas, no geral eu tenho visto trabalhos muito interessantes, além de novos espaços dedicados a exposição, como o Linda Mascarenhas, que estão surgindo e que estão abrigando essa leva de novos artistas. De modo que vejo com muita satisfação o momento atual da fotografia alagoana.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

De novo no Front

Jovens roqueiros agitam cena independente de novo no front
Diogo Braz

Os movimentos artísticos são cíclicos como as marés: às vezes, há uma alta e a cidade experimenta um fervilhar de manifestações e, em outros momentos mais baixos, padece num marasmo criativo. Graças aos seus jovens habitantes, inquietos por natureza, a chamada “cena” sempre terá combustível para se reinventar, copiando ou até mesmo ousando criar novos modelos. Uma coisa é certa: as diferentes gerações sempre se beneficiam mutuamente em seu contato. Jovens artistas podem aprender com a experiência dos mais rodados e estes oxigenam sua produção com o gás de um público novo, mais cheio entusiasmo e energia.


Público de diferentes gerações apreciam o Rock - Foto de Diogo Braz

No dia 11 de novembro, no Espaço Linda Mascarenhas, pode-se presenciar um momento importante nesse encontro de gerações. Trata-se do mini-festival “De novo no front”, realizado pelo Coletivo Popfuzz. No line up do evento, nomes recentes no cenário musical, como Sticky Garden (AL) e Alma Bélica (AL), e nomes mais conhecidos, como Kaddish (AL) e Gandharva (PE).
A noite começou com a Alma Bélica, banda formada exclusivamente por garotas que surpreendeu o público com seu Rock melódico, sem perder o peso. Os elogios à performance da banda ecoaram pela plateia, vindos de nomes como o músico e jornalista Marcelo Cabral, da banda Coisa Linda Sound System. “Eu fiquei razoavelmente impressionado, pra falar a verdade. Não conhecia a banda, nunca tinha ouvido falar e me empolguei pra escrever alguma coisa sobre a noite por causa desse show, que eu achei muito massa! Eu acho que a Melinna (vocalista da banda) é uma promessa. Elas estão apenas começando e já está bom pra caramba, imagina quando elas amadurecerem mais essa musicalidade delas... Eu acho que é uma promessa pra música alagoana”, elogiou. As integrantes da banda também aprovaram a apresentação. “Foi incrível. Todo mundo da banda se divertiu muito e eu acho que o público também. O clima do show foi muito bom, tocamos até uma música do Red Hot (Chili Peppers) de improviso. Estamos muito felizes”, declarou a baixista Daniely Rocha.


Alma Bélica, um dos destaques da noite - Foto de Diogo Braz

A banda Gandharva também elogiou a Alma Bélica e fez questão de convidar a vocalista e guitarrista Melinna Guedes para participar do seu show, tocando guitarra no cover de Nirvana, Territorial Pissing, coroando a participação da banda no evento. “Foi uma grande noite pra gente. Foi o primeiro show com esta formação, o que deixou tudo mais novo, mais empolgante, mudou a energia a unidade da banda agora também conta muito. Estamos muito felizes, como uma família mesmo.”, explica Melinna, que adiantou que a banda entrará em estúdio este mês para gravar sua primeira leva de canções. “Já vínhamos tentando gravar antes, mas por uma coisa ou outra não deu. Mas em dezembro, de certeza, a gente entra em estúdio pra gravar sete músicas, mas aos poucos. Depois vamos liberando pela Internet”, promete.


Sticky Garden e seu som com foco sessentinta - Foto de Diogo Braz

A segunda banda da noite foi o power trio Sticky Garden. A banda faz um som alegre, que flerta com tweed, folk, som dos anos 60, Beatles e punk inglês. Tudo isso, com muita distorção e performances peculiares, do carismático vocalista e guitarrista Gabriel Passos. A banda faz parte do catálogo do selo do Popfuzz e vem ganhando destaque entre as bandas mais jovens da cena por suas apresentações ao vivo. Os três garotos já acumulam apresentações em festivais como o Maionese e a Semana da Música de Arapiraca, mostrando que a Sticky Garden vem levando seu som a sério.


Irreverência na Banquinha da Popfuzz, sempre presente nos eventos culturais - Foto de Diogo Braz

No show, a banda mostrou canções de seu primeiro EP, Dizzy, e algumas canções que estarão no primeiro disco completo, previsto para ser lançado em breve. “Estamos nos preparativos pra começar a gravar em janeiro, pra gente poder lançar ainda no começo do próximo ano. A gente já mostrou hoje algumas músicas novas”, adiantou o baterista Felipe Soares. Sobre o De novo no Front, Felipe acha que é importante para movimentar a cena. “Nós ficamos muito felizes em participar, é importante pra incentivar, dar um ânimo pra quem tem banda e quer tocar. É um evento legal pra cidade”, analisa.
A terceira banda a subir no palco do Espaço Cultural Linda Mascarenhas foi a anfitriã da noite, a Kaddish. Formada por remanescentes de bandas do cenário alagoano dos anos 90, a Kaddish tem como sua principal influência o mix new age e punk inglês dos anos 80. No palco, os jovens senhores de meia idade rejuvenescem 10 anos no mínimo, mostrando um show enérgico, na medida permitida pelo tom sóbrio e meio soturno de suas canções.


Kaddish: Experiência que faz a diferença - Foto de Diogo Braz

A banda, que estreou sua nova formação no início do outubro, aparece cada vez mais afiada e entrosada no palco. O público presente aprovou o som do trio. “Como eu já conheço o som deles, eu vim pra ver a Kaddish e conhecer as outras bandas. O evento é perfeito pra se conhecer novas bandas, o público está bem animado e no geral está tudo muito legal”, afirmou o funcionário público Diego Barreto.
O vocalista, guitarrista e idealizador do De novo no Front, Luiz Eduardo Calado, explica como nasceu o festival. "A ideia surgiu numa conversa com o (jornalista e músico) Fernando Coelho, onde eu falava sobre a falta de espaços para tocar com a banda e surgiu a ideia de fazer um show da banda, agregando outras bandas. Daí pro formato do De novo no Front foi um pulo, fui pra casa com a cabeça fervilhando, pensando em nomes e maneiras da coisa funcionar. Já tinha lido um livro chamado 'Nada de novo no front' e associar esse título com a batalha que é produzir show em Maceió foi rapidinho". 
Para encerrar a noite foi a vez da banda Gandharva mostrar seu Stone Rock cantado em inglês, mas com o típico sotaque pernambucano. Os caras se empenharam em fazer uma grande apresentação, muito enérgicos e comunicativos, estabeleceram uma ligação legal com o público, que dançou e vibrou com cada uma de suas canções. Guitarras pesadas, marcação da bateria precisa e melodias vocais com traços psicodélicos, essa é a ótima fórmula da banda, que fez questão de elogiar o público de Maceió. “Estamos descendo desde Fortaleza e todos os shows têm sido massa, mas em Maceió sempre é especial. A gente tá muito feliz de estar aqui hoje. Sem demagogia, mas vocês são demais!” Declarou o vocalista e guitarrista Diogo Pontes.


Gandharva fechou com chave de ouro - Foto de Diogo Braz

O idealizador, Luiz Educardo Calado, avaliou esta segunda edição do evento como positiva. "A estrutura estava muito boa, as bandas e o público elogiaram, o nível das bandas foi muito bom, a curadoria funcionou, enfim... só me deu forças pra fazer a terceira edição no ano que vem", avaliou.
Finalizada mais uma edição do De novo no Front, a troca de vivência entre as gerações parece ter sido frutífera, na esperança de que a cena musical se oxigene e ganhe mais experiência em oportunidades como esta, para que sempre haja jovens roqueiros dispostos a lutar o bom combate, de novo no front.