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terça-feira, 16 de julho de 2013

Entrevista: Thiago Sampaio (espetáculo Mal)

O mal que vem para o bem do teatro
Thiago Sampaio, um dos diretores de Mal, fala sobre o espetáculo e sobre o teatro

Diogo Braz

Em cena desde 2002, a Cia do Chapéu vem se destacando a cada montagem como um grupo inventivo e versátil, agraciados com prêmios nacionais e participações em diversos projetos. Fruto de uma dessas premiações (Prêmio Myriam Muniz de Teatro, da Funarte), Mal, o mais novo espetáculo da companhia, estreou temporada este mês no Espaço Cultural Linda Mascarenhas, às sextas e sábados de julho, e vem arrancando aplausos e reflexões de um público que se acostumou a ver esses jovens artistas a percorrerem caminhos inusitados para chegarem a excelentes resultados. Em entrevista a este Blog, o ator Thiago Sampaio, um dos diretores do espetáculo (junto com Gustavo Félix), fala sobre o processo de criação do espetáculo e sobre teatro. Confiram a conversa e não deixem de assistir o trabalho desses talentosos "chapeleiros" em cena. 

Como surgiu a vontade de trabalhar um texto sobre solidão, morte, pensamentos intrusivos e transtornos de comportamento?
Como uma bola de neve, sem sabermos ao certo que tocaríamos nessas questões. A proposta inicial foi a de falarmos sobre o mal, assim bem genérico, bem amplo. Logo em seguida, diante da necessidade de localizar, de demarcar esse “mal”, chegamos à depressão, uma doença que nos assombra há muito tempo, embora as descobertas sobre ela sejam bem recentes e que até 2030 será a doença mais comum do mundo, segundo pesquisa da Organização Mundial de Saúde. Foi a partir do universo da depressão (algo ainda bem amplo) que nos vimos tocando em todas essas outras questões; o assunto principal se ramificou e ganhou outros contornos, tornando-se inclusive secundário no processo.

O ator e diretor Thiago Sampaio - Foto de acervo do artista

O processo de criação da peça se iniciou em 2010 como uma proposta para três atores e hoje chega ao público como um solo do ator Rick Galdino. Como foi esse processo e como vocês chegaram ao formato da peça?
É difícil dizer com precisão quando esse processo se desdobrou em três. Em algum momento percebemos que, mesmo contando com três atores num único trabalho, a criação individual de cada um possuía um alto nível de autonomia em relação ao todo e aí resolvemos correr o risco de desmembrar o trabalho em três, onde cada ator passaria a desenvolver uma pesquisa independente, porém ainda ligada ao mesmo eixo temático. Com Rick Galdino investimos numa configuração teatral, com Joelle Malta nos vimos diante de um trabalho transitando entre uma instalação coreográfica e uma performance, e quanto ao Donda Albuquerque enveredamos para um vídeo arte.
No caso do “Mal”, que é a peça em questão, trabalhamos basicamente com exercícios de improvisação e com a construção de uma dramaturgia inspirada em histórias particulares nossas. À medida que levantávamos certas memórias e situações vividas na maioria das vezes por nós três (eu, Gustavo Félix e Rick Galdino), tratávamos de complementá-las com informações ficcionais, ora misturando elementos de histórias diferentes, ora distorcendo-as seja por alteração nos texto ou nas ações.
Como se deu a escolha estética de encenar Mal numa estrutura cenográfica que independe de palco (no Linda Mascarenhas, por exemplo, a peça está sendo apresentada no Hall)?
Quando iniciamos o processo, a Cia alugava uma casa bem ampla no centro da cidade e a nossa pretensão era a de nos apresentar lá. Ou seja, a ideia desde o princípio era a de levantar um trabalho para residências. Nos mudamos para uma outra casa, um pouco menor e ainda assim continuamos com essa ideia. Foi nessa segunda casa, já em 2012, que o espetáculo chegou na configuração apresentada hoje, no sentido da distribuição do público ser lateral e não frontal. Quando fechamos a estreia no Linda Mascarenhas já sabíamos que não seria no teatro e sim no Hall, que apesar de amplo, possui limitações acústicas (carpete, altura, entrada do som externo...). Isso nos obrigou a levantar a estrutura que cerca a cena, para minimizar o confronto com a qualidade acústica do espaço e também para garantir a proximidade com o público que sempre nos interessou.

Rick Galdino em cena, sob o olhar atento do diretor - Foto de Diogo Braz

Pode-se perceber que vocês trabalharam um ritmo para a montagem que sugere um mergulho do espectador nesse universo solitário e doentio do personagem. Qual a intenção principal de Mal, é contar uma história ou proporcionar uma experiência? Como vocês avaliam, em Mal, a capacidade do teatro de despertar sensações no público e fazer do espectador agente participativo da construção dos sentidos do espetáculo?
Eu acredito que o Mal corresponde às duas coisas simultaneamente (conta uma história e proporciona uma experiência), sem privilegiar nenhuma delas. Quem assiste ao espetáculo tanto acompanha a trajetória de vida de um personagem quanto está vivendo uma experiência diferente da sua vida ordinária. É difícil dizer das sensações do público, pois isso é de foro íntimo, e não é possível ter certeza absoluta de que todos compreenderam o trabalho de uma mesma forma; mas eu acredito que a simples presença da plateia, bem como de todos os elementos ali dispostos, alteram o estado de ânimo do ator que por sua vez também afeta a percepção de quem assiste. Nessa relação não há linearidade (eu assisto e só depois eu sinto), nossa percepção é arbitrária e assim pode acontecer de alguém assistir à peça e não reparar algo que uma outra pessoa que assistiu ao seu lado no mesmo dia reparou. E isso certamente afeta a construção do(s) sentido(s) do espetáculo para quem o assiste.

Mergulho no universo de Mal - Foto de Diogo Braz

Vocês estão na ativa há mais de uma década e já tiveram diversas experiências de fazer teatro. Qual a importância prática deste espetáculo ter sido selecionado no Prêmio Myriam Muniz?A cia sempre levantou seus trabalhos de forma autônoma, tirando do próprio bolso e rateando os lucros (quando havia) entre os participantes. Levantar espetáculos dessa forma, por mais arriscado e exaustivo que seja, nos ajudou a fortalecer nossos vínculos pessoais e sentimento de cooperação, além de desenvolver certas habilidades importantes para o ofício (confecção de cenário, figurino, sonoplastia e iluminação). Na ausência de recursos nos aventuramos e dividimos as tarefas por afinidade, nos revesando na produção, na cenografia, na direção, atuação e assim por diante. Quando ganhamos um prêmio dessa natureza, como aconteceu com o espetáculo “Graças” em 2010 (Prêmio Alagoas em Cena, da Secult e Caixa Econômica) e agora com o “Mal” (Funarte de Teatro Myriam Muniz 2012) não sentimos que o trabalho se tornou mais fácil ou mais leve, porém o realizamos com mais tranquilidade, porque sabemos que nossas ideias tem uma garantia maior de ganhar corpo. O espetáculo estrearia com ou sem prêmio, pois já vínhamos trabalhando nele há um tempo e já estava mais do que na hora dele avançar de estágio, saindo da sala de ensaio para o confronto com o público. O prêmio da Funarte veio justamente nesse momento, favorecendo essa mudança de status de maneira mais complexa, porque nos preocupamos não somente com o espetáculo em si, mas com a construção de espaços de reflexão sobre o fazer teatral, trazendo profissionais de outras localidades para ministrarem oficinas gratuitas, além de realizarmos ensaios abertos durante o processo de montagem, expondo nossas ideias para debate.

Rick Galdino interage com a cenografia de Isaac Vale - Foto de Diogo Braz

Para vocês, qual o principal mal do teatro alagoano?Seria ingênuo atribuir a um único fator a responsabilidade sobre um problema do teatro alagoano. Nós enfrentamos adversidades múltiplas, algumas se repetem e outras se revesam conforme o tipo de trabalho que se faz. A Cia do Chapéu tem sérias dificuldades de captar recursos, por exemplo, pois nossa habilidade com produção ainda é pouco desenvolvida, mas isso não é uma característica pertencente a todos os grupos e artistas locais. No entanto, todos nós sofremos com o limitado número de casas de espetáculos que Alagoas possui. E apesar de todas as dificuldades, o estado possui uma série de competentes artistas e sérios estudiosos, de pessoas que estão pensando e fazendo teatro e dança, além das outras linguagens artísticas. Acredito que há sempre o que se melhorar, se na qualidade técnica a responsabilidade é do artista, que deve estudar, se exercitar, assistir e consumir arte; se no contexto, a responsabilidade cabe aos dirigentes dos setores competentes, públicos e privados, oferecendo espaço, investimento financeiro, oportunidades de troca e intercâmbio com outros profissionais entre outras ações dessa natureza. É preciso manter viva toda e qualquer iniciativa que estimule a criação artística, de qualquer natureza, pois quando se interrompe um processo, como a distribuição de um prêmio ou a disponibilização de um espaço para ensaios e apresentação, vê-se crescer o número já alto de restrições com que se faz arte por aqui.

Rick Galdino e Thiago Sampaio em ensaio aberto ao público - Foto de Diogo Braz

Quais são os planos para a montagem depois desta temporada?

Pretendemos realizar mais algumas apresentações até o fim desse segundo semestre, ainda com data e local indefinidos. Como, após a temporada, o foco da Cia estará voltado para o segundo trabalho do mesmo processo que gerou o “Mal”, no caso “Tarja Preta”, com a atriz Joelle Malta sob direção de Donda Albuquerque; deixaremos uma temporada do Mal numa proporção maior para 2014. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Entrevista: Naara Normande

Pérola de reportagem
Naara Normande fala sobre seu primeiro livro e a grande reportagem

Diogo Braz

Naara Normande é uma jovem e talentosa jornalista nascida em Manaus, radicada em Maceió, residindo atualmente em Salvador. No seu processo de especialização profissional, encantou-se pela grande reportagem e a adotou como estilo favorito de escrita. Mantendo o olhar sensível à realidade das pessoas comuns, Naara revela verdadeiras pérolas de histórias de vida em seu primeiro livro "Entre uma ostra e outra: histórias de vida dos ostreicultores de Alagoas”, que será lançado nesta terça (09.10.2012), às 20 horas, no Espaço cultural Linda Mascarenhas. A jornalista falou em entrevista exclusiva para o Blog do Linda Mascarenhas sobre o seu processo de escrita e muito mais. Vale a pena conferir:

Naara, este é seu primeiro livro, resultado de sua pesquisa de especialização em Comunicação Jornalística. Como nasceu o interesse em pesquisar e escrever sobre a vida dos ostreicultores?
Inicialmente, pensei em temáticas relacionadas aos mares e lagoas, que tão bem representam nosso estado. Como o turismo, a pesca e captura de sururu já tinham sido retratados em publicações e também na mídia local, procurei por outras atividades ligadas a esses ecossistemas. Sabia da existência desse projeto de ostras na Barra de São Miguel, mas não tinha ideia da dimensão. Na apuração das informações, vi que existiam muitos investimentos, capacitações e uma mobilização crescente em torno dos cultivos de ostras em Alagoas. Quando fui conhecer os cultivos percebi que ninguém ainda tinha parado para ouvir e registrar como era o dia a dia daqueles produtores: a rotina de trabalho, as dificuldades e as esperanças de uma vida melhor. E então decidi que mostraria o lado que poucos conhecem.

Naara e o talento para contar histórias - Foto de acervo da autora


Em tempos de microblogs, onde as pessoas parecem ter pressa e pouca disposição para leitura, por que você escolheu o formato de grande reportagem para contar essa história? Você acredita que o "micro texto" é uma tendência e que isso influencia de alguma forma na maneira de contar histórias, inclusive nas grandes reportagens?
A grande reportagem é o formato jornalístico que mais me encanta. No TCC da graduação na UFAL escrevi uma grande reportagem sobre a presença dos estudantes africanos em Alagoas, mas eu  tinha muita vontade de escrever um livro reportagem onde seria possível aprofundar, detalhar e problematizar ainda mais um tema. Acredito que o prazer pela leitura é a questão central. É muito bom se envolver em uma narrativa, independente se o suporte dela é impresso ou digital. Agora, claro, na web e nos suportes móveis como os tablets e smartphones temos outros recursos que nos auxiliam para contar as histórias de uma maneira ainda mais atraente. E não acredito que o micro texto influi na grande reportagem, são propostas diferentes. Considero que essas "pílulas" de textos estão mais relacionadas as informações que os usuários precisam em tempo real, seja para saber dados sobre o trânsito, um jogo de futebol ou o que houve de importante na cidade e no mundo naquele momento.    

Como essa vivência com os ostreicultores te tocou pessoalmente; qual a pérola mais preciosa que você extraiu dessa experiência?
Para escrever o livro, tive contato com mais de vinte ostreicultores de quatro cultivos (Maceió, Barra de São Miguel, Passo de Camaragibe e Coruripe). Conversávamos nos cultivos, nas casas dos produtores e também na sede das associações. Apesar da ostra ser o ponto em comum, foi interessante perceber as diferenças em cada cultivo que visitei: a forma como os grupos se organizam, o apoio que recebem, a visibilidade que possuem. Mas foi uma produtora de Ipioca, a Dona Célia, a que mais me cativou. Ela é uma senhora amargurada com a vida, de palavras muito fortes, mas encara tudo com muito humor e com uma espiritualidade que impressiona. 


Olhar atento á realidade ao redor - Foto de acervo da autora


Pode-se dizer que você, que nasceu em Manaus, cresceu em Maceió, especializou-se em São Paulo e agora mora em Salvador, pôde observar realidades, costumes e culturas diversos. Quais são os elementos das histórias dos ostreicultores alagoanos que lhes tornam universais, ou pelo menos semelhantes às histórias de outros "Brasis" que você conviveu?   
Esses ostreicultores, assim como vários outros trabalhadores, enfrentam dificuldades relacionadas à inadequação das políticas públicas, como a falta de moradias adequadas, saneamento básico, educação, saúde, e ainda assim persistem com a esperança de melhoria da qualidade de vida. Claro que muitos produtores desistiram devido à falta do retorno financeiro, mas, de maneira geral, os grupos vêm tentando resistir porque é o trabalho que possuem, além de ser um local a mais para a convivência de vizinhos e familiares.

Como você enxerga o mercado editorial para as grandes reportagens?
Acredito que ainda há muito espaço a conquistar, principalmente o apoio de editoras e interessados na viabilização dessas publicações. Cabe a nós procurarmos temas que sejam relevantes e abordá-los de uma maneira diferenciada. Em relação às produções, hoje temos vários livros reportagens, a maioria elaborados por estudantes de Jornalismo, e também obras referências como as de Caco Barcelos e Eliane Brum. 
  
Pergunta clichê, mas ainda necessária: Quais as dificuldades enfrentadas para se publicar um livro em nosso país, principalmente em Alagoas?
Em relação ao apoio para publicação desse livro, não tenho o que reclamar. O Sebrae e a Edufal, parceiros do livro, se interessaram pela temática e possibilitaram a concretização do material, do financiamento à revisão editorial. A maior dificuldade foi enfrentar todo o processo burocrático, mas também porque foi minha primeira experiência. Espero agora a parte mais importante da publicação do livro: o retorno do público. 


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Entrevista: Roberta Aureliano

A música das Alagoas
Roberta Aureliano fala sobre seu show baseado na cultura popular

Diogo Braz

Com show marcado para sexta, dia 21 de setembro, pelo Projeto Linda de Música e Artes Visuais, Roberta Aureliano prepara-se para levantar um estandarte importante: o da valorização cultura popular alagoana, da música dos mestres. Com um repertório recheado de referências aos brincantes, Roberta aproveitará a oportunidade para homenagear o seu pai, Mestre Ronaldo Aureliano, com quem aprendeu a escutar a música folclórica com os ouvidos atentos e apaixonados de um ouvinte de FM. Numa entrevista exclusiva para o Blog do Espaço Linda Mascarenhas, Roberta fala sobre sua relação com música e teatro, suas primeiras influências, seu pai, e sobre o que o público pode esperar do show de sexta, às 20 horas, no Linda Mascarenhas. Confira!

Como se deu a construção do repertório e desse show em si? o que o público pode esperar de Roberta Aureliano no Projeto Linda de Música e Artes Visuais?
Pra falar a verdade, a construção "dos repertórios", se deu com a vontade de Roberta junto a um sonho de Ronaldo, de que as músicas dos Mestres da Cultura Popular Alagoana fossem ouvidas e cantadas não apenas pelos Mestres e pelos brincantes na hora da brincadeira, da dança, da apresentação, mas sim por todos os alagoanos a qualquer hora, em qualquer lugar e em qualquer situação.
No primeiro momento, cantarei parte do meu show solo - I ATO (também título do meu primeiro CD que ainda será lançado), que virá com composições de Mestre Sebastião do Guerreiro de Viçosa, da Mestra Maria do Carmo das baianas de Santa Luzia, do poeta Jader Tenório, de Mestre Osório do reisado do Bananal (Viçosa), do pesquisador Ary de Oliveira, do amigo e músico Basílio Séque, inclusive, será uma das participações especiais no show – e do grande homem e artista Ronaldo Aureliano.
Já no segundo momento, convidarei ao palco a Banda Fulô de Maracujá (com a qual estou desenvolvendo um trabalho junto desde o São João de 2010), para alegrar a noite um pouco mais. A escolha do repertório da Fulô foi coletiva e buscou-se um foco onde a 'nordestinidade' estivesse totalmente presente nos ritmos apresentados.
Com isso, o público do Projeto Linda de Música e Artes Visuais, pode esperar muita alegria, muita cor, um clima gostoso de interior, o clima de Viçosa, da "Viçosa, cidadezinha do país das Alagoas, terra de tanta coisa ruim e terra de tanta coisa boa", como bem falou Théo Brandão.




Você é atriz e cantora, o que leva do trabalho de atuação para a sua performance como cantora?
Em primeiro lugar, o próprio canto que vem das entranhas, da emoção que a música pede, do sentimento que as composições provocam. Sem o luxo de explorar qualquer técnica musical, o natural passa a ser minha maior característica com referência ao meu trabalho de atriz, pois creio que o natural faz a cena parecer real e isso, para mim, é teatro. Daí vem os casos e causos que são contados durante o show, poemas que são recitados e cenas que de repente surgem, explorando ainda mais o "jogo" teatral na minha performance e na performance do show.

Seu pai, o mestre Ronaldo Aureliano, registrou em sua obra o cotidiano do povo nordestino. Por coincidência ou não, pode-se perceber uma forte presença de elementos nordestinos na sua música, como você chegou a esse formato estético para o seu som e como você acha que a convivência artística com o seu pai lhe influenciou no despertar para essa sonoridade?
Esse formato se deu ouvindo... ouvindo... e... ouvindo os Mestres. Observando que, por muitas vezes, o "público", simplesmente, não está "nem aí" pra essa linguagem, a linguagem popular, a nossa linguagem. O "público" não queria ouvir. Pensei então que as músicas dos Mestres precisavam ser ouvidas, e, para que isso acontecesse, elas precisariam estar mais próximas desse "público", ou seja, falando a mesma língua dele. Talvez não seja essa a melhor maneira de trazer e apresentar a musicalidade desses Mestres, mas funcionou. Para mim a essência deve permanecer sempre, e, por isso, já estou com planos para o meu próximo trabalho.
A convivência com o Mestre Ronaldo Aureliano com certeza influenciou bastante, pois foi ele quem me apresentou o mundo artístico, foi ele quem me apresentou os Mestres. Ele sempre dizia: (AOS GRITOS)" É inadmissível você não conhecer a história de Sebastião do Guerreiro, de Mestre Osório!!! (COM GESTOS EXAGERADOS DE REVOLTA) Isso é um crime!!!" E eu acreditei nele, naquele pensamento, naquela verdade. Até hoje acredito e gostaria que todos acreditassem também pra saber como são belas essas histórias. Essas histórias que formam a nossa história, a história do povo alagoano, a história de Alagoas.



Esta edição do Projeto Linda fará uma homenagem ao seu pai, não somente porque será aberta a exposição "A casa do mestre", com as obras dele, mas porque você estará no palco nesse momento emblemático, com um trabalho que tem certa aproximação com o trabalho que foi desenvolvido por ele. Como você enxerga esse show, esse momento de homenagem?
Eu enxergo esse show como uma forma de conformar-me um pouco com a ausência do meu pai e a alegria de saber que a alma do Mestre continua viva em cada obra que ele fez. Vejo a homenagem do Projeto Linda de Música e Artes Visuais como uma iniciativa muito nobre e uma oportunidade incrível dada aos artistas. Aproveito o momento para agradecer à todos os idealizadores do Projeto por esta porta que foi aberta com tanto carinho. Muito obrigada!

Você toca música nordestina, mas que nada se parece com o tal forró eletrônico, ou outros timbres mais comerciais da sanfona. Como você enxerga o cenário cultural alagoano para a sua música?
Acho que já estivemos em situação pior. Temos tantos artistas já preparando, formando essas plateias, que graças a Deus, estou conseguindo ganhar espaço no cenário da música alagoana com o som que faço. Esse som que não é meu. Esse som que vem da criatividade e talento dos nossos Mestres. Esse som que ficará eternizado por sua própria existência.
Salve Mestre Sebastião, salve Mestra Maria do Carmo, salve Mestra Virgínia, salve Mestra Ilda, salve Mestre Osório, salve Mestre Expedito, salve Mestre Bia, salve Mestra Quitéria, salve Mestre Ronaldo Aureliano...

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Entrevista: Renan Inquérito

Versos que lutam mil batalhas
Renan Inquérito fala sobre a sua poesia transformadora

Diogo Braz

Se a arte pode transformar vidas na guerra do dia a dia, a poesia de Renan Inquérito é uma arma poderosa em combate. De versos curtos, concretos e eficazes, a escrita do MC paulista pode ser conferida no seu primeiro livro,  #PoucasPalavras, que será lançado às 8 horas do dia 24/09, no Espaço Cultural Linda Mascarenhas. 
Renan é um homem do hip-hop, integrante do cultuado grupo de Rap Inquérito, escritor e educador. Participa de projetos sociais ministrando oficinas de literatura em escolas e unidades de detenção e chega a Maceió para conversar com o público interessado em literatura e cultura hip-hop. 
Numa entrevista exclusiva para o Blog do Espaço Linda Mascarenhas, Renan fala sobre a sua relação com a poesia e o hip-hop, seu trabalho como educador e sobre o seu livro, em poucas e boas palavras. Confira!

Na sua vida, como surgiu a vontade de escrever? Foi por causa da poesia que você se tornou MC? 
Quando eu comecei a escrever não sabia nem o que era poesia, o que era letra de música, eu simplesmente escrevia sem me preocupar com a forma, depois que fui tomar ciência…
Como a cultura hip-hop influencia a sua poesia?
Ela simplesmente norteia tudo que eu escrevo, direciona todas as minhas palavras, se eu for escrever algo que se contradiz com o que o hip-hop prega eu simplesmente não escrevo, o hip-hop foi a minha escola, minha diretriz.

Renan, a métrica e a rima - Foto de divulgação

Como você analisa o papel da declamação em relação à sua obra, extremamente visual na construção?
Algumas poesias não tem sentido e nem força fora do papel, outras já são justamente ao contrário, só tem força se declamadas, o meu livro é uma mistura disso tudo, é a força da fala (como o rap) e a força do visual (como o grafite), uma imagem que diz mais que mil palavras.
Este é o seu primeiro livro, fala um pouco sobre ele, como é que você chegou no formato e no conceito para realizá-lo?
A essência do conteúdo veio das minhas letras, o formato (de bolso) veio do nome #PoucasPalavras, e do fato de torná-lo muito mais barato e acessível ao leitor. As cores, as fotos, os desenhos, a diagramação, a disposição e organização dos capítulos aconteceram com a ajuda de pessoas muito próximas e que compartilham das minhas ideias, são elas Jéssica Balbino, Marcio Salata, Toni C, Mundano e Narúbia.
Lançando um livro de bolso chamado #PoucasPalavras (uma alusão a Hastag do microblog Twitter, em que somente são publicados textos com até 140 caracteres) você aborda essa pressa do mundo contemporâneo, onde você mesmo fala que as coisas passaram a ser compactadas e diminuídas. Como esse panorama te influenciou na construção do livro? 
Me influênciou não só na construção do livro como na própria vida, hoje tudo é diminuído, veja o MP3, veja os carros, alguns são feitos para apenas uma pessoa, note o tamanho das músicas e filmes, tudo diminuiu, até as casas e apartamentos são cada vez menores. As pessoas acham bonito tudo que é compacto, Bonsai, Pinscher (cachorro), Netbook, etc. Dentro de tudo isso também diminuiu o respeito, o orgulho, o amor, a caridade e tantos sentimentos bons, que muitas vezes são jogados na lixeira para não ocupar espaço no “HD”.

Renan e sua poesia hip-hop - Foto de divulgação 

Você acredita que essa diminuição, a compactação de tudo, pode comprometer o futuro do texto poético? Como você lida com ela?
Na verdade não, porque esse tipo de poesia já existe faz tempo, desde o Haikai japonês até as frases de para-choques de caminhão no Brasil. Mas é legal que surge um novo estilo de escrever, torna-se um desafio para o escritor desenvolver um conto ou uma poesia usando poucas palavras. Se por um lado compromete a qualidade por outro estimula a criatividade.

Ao mesmo tempo em que você comunica com poucas palavras nas poesias, faz Rap com letras extensas. Como é que você lida com o Renan poeta e o Renan compositor?
Na verdade, eu não separo. Na hora da criação, nunca sei se aquilo sera uma música ou uma poesia, já fiz poesias que me salvaram na hora de terminar uma música pros meus discos, e já fiz músicas que tornaram-se poesias no papel, então não existe limite, a fronteira fica sempre aberta e vira e mexe um verso clandestino migra, ilegalmente do microfone pro papel e vice-versa.
Sobre seu trabalho social, como é a experiência de intervir na vida de detentos, pessoas em situação de risco, usando a poesia como instrumento de transformação social? Quais os resultados que você vem observando nesse processo?
Pra mim é extremamente gratificante, até porque como educador eu sei o quão limitado são os métodos pedagógicos tradicionais, por isso me sinto um privilegiado, por poder levar o conhecimento de uma maneira simples e acessível, e o que é melhor, de acordo com as práticas de vivência dessas pessoas, a identificação é automática. Atuo muitas vezes onde os métodos formais fracassaram, por isso a cobrança é dobrada, a responsa é maior, muitas vezes pego “a batata queimando já”, e me colocam pra apagar incêndio com copo d’água, nem sempre consigo.

domingo, 9 de setembro de 2012

Entrevista: Elisa Lemos


Desvendando Elisa Lemos
Próxima atração do Outras Ondas fala sobre música e mais

Diogo Braz

O Espaço Cultural Linda Mascarenhas terá a felicidade de ser o primeiro palco onde a jovem cantora e atriz Elisa Lemos fará o seu primeiro show, intitulado Caleidoscópio. A apresentação acontecerá pelo projeto Outras Ondas  nesta sexta, dia 14 de setembro, a partir das 20 horas. Filha do renomado guitarrista Toni Augusto, Elisa subirá ao palco acompanhada de seu pai, Allysson Paz (bateria) e Anderson Silva (baixo).
Para conhecer um pouco mais sobre essa talentosa jovem, antes de conferir o seu show na sexta, leia abaixo uma entrevista exclusiva que Elisa concedeu ao Blog do Linda.

Elisa estreia no Outras Ondas, nesta sexta - Foto: acervo da cantora


Elisa, você que é atriz, como se descobriu uma cantora? como é que surgiu esse seu envolvimento com música e a vontade de fazer um trabalho artístico com música?
A música veio primeiro que o teatro, mas era algo muito intimista e visceral, cantava quando não tinha ninguém por perto. Lembro de ir para festas e lá  o pessoal  sempre se reunia  para tocar e cantar, mas eu  morria de vergonha de  cantar na frente deles, pelo fato de serem músicos profissionais. Até que um dia, meu pai me chamou e não tive como e nem quis  recusar. O Júnior Almeida me ouviu cantar numa dessas festas e gostou. Ele me incentivou a iniciar uma carreira. Quando fui convidada a participar do projeto Outras Ondas, vi a oportunidade de realizar um sonho.

Como você descreveria o seu trabalho, para quem ainda não conhece sua música?
Então... Sou cantora intérprete. Defino o estilo que canto como MPB, com pegadas no Rock setentista. É uma  mistura de estilos,  por isso o show se chama Caleidoscópio (risos).

Caleidoscópio intimista - Foto de Fernando Cysneiros

Quais são as suas influências?
De tudo um pouco. Principalmente Rock clássico, MPB, Jazz, música erudita e músicas  do Leste europeu.

Você é filha de um dos grandes guitarristas de Alagoas, Toni Augusto. Esse fator facilitou ou atrapalhou a sua incursão na música? 
Só facilita, pois partilhamos de um gosto em comum. Talvez a única dificuldade seja a minha exigência de estar à altura do talento dele.

Você e seu pai vão dividir palco no seu show de estreia, qual é a sensação de levar essa parceria de casa para os palcos?
É de conforto e responsabilidade. Porque, além de tocar comigo, ele é o produtor musical do show. Apesar de ser muito exigente, ele sabe me ouvir. Não só ele, mas também o Anderson e o Allysson. Eles me ajudam muito e com isso me passam segurança.

MPB com pegada Rock - Foto de Jackson Rodrigues


Você estará lançando seu trabalho no projeto Outras Ondas. Qual a expectativa para o show e para a sua carreira?
Muito animada e ansiosa (risos), espero que dê tudo certo e que esse seja o primeiro de muitos. Acho de suma importância um projeto como esse em nosso estado, que  promove a visibilidade para novos artistas.
  

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Entrevista: Favela Soul


Black music alagoana para todas as cores, credos e opções

Diogo Braz

Eles fizeram um ótimo show na estreia do projeto Outras Ondas e são legítimos representantes dos bairros mais distantes. Conhecida da noite maceioense por seu repertório de versões para sucessos de outros artistas, a banda Favela Soul agradou também com um repertório autoral. Para saber mais um pouco sobre o trabalho e as impressões que eles tiveram do show no Linda Mascarenhas, o Blog do Espaço Cultural Linda Mascarenhas conversou com os vocalistas Jhon Raifer e Nando Rozendo, o Tribo. Tudo e mais um pouco, você também pode saber logo abaixo. Boa leitura!

Favela Soul no palco do Linda Mascarenhas - Foto de Everton Batista


O show da Favela Soul na estreia do projeto Outras Ondas teve uma boa repercussão: casa lotada, elogios do público, muitos aplausos. E para vocês, como foi a experiência, o que acharam do show?
Tribo - Não temos palavras pra descrever o quanto estamos felizes pelo convite do IZP para abrir o Projeto Outras Ondas. A nossa felicidade foi dobrada com a presença de um público que lotou o Linda Mascarenhas. A galera estava num super astral e respondeu com uma energia contagiante do início ao fim. Pra nós, foi um desafio mostrar um repertório fundamentalmente autoral, já que, até então, nosso set list era, em sua maioria, feito de versões. Foi motivador ter essa resposta imediata da plateia, e também ouvir o “burburinho” após a apresentação com as mensagens de felicitações e incentivo que ainda estamos recebendo.

Jhon Raifer - Foi uma experiência extremamente linda e especial. Pra mim, principalmente, porque foi o meu primeiro show com a Favela Soul. Estava muito nervoso, mas depois que nós subimos no palco, a sintonia foi perfeita, parecia que nós já estávamos há um bom tempo na estrada. O público ajudou bastante! O teatro tava lotado! Eles cantaram, dançaram, sorriram e vieram falar conosco depois do show, querendo saber de agenda, contatos, foi incrível!

Jhon Raifer - Foto de Everton Batista


Como vocês enxergam o cenário musical da cidade para o som que vocês fazem? Não existe muita gente fazendo Soul Music autoral aqui em Maceió.
Jhon Raifer - O nosso som é bem distinto do que as outras bandas fazem. As pessoas se importam muito com o que vai vender e não com o que realmente gostam de fazer. É difícil chegar a algum local com suas próprias canções esperando que alguém queira escutá-las. As pessoas estão acostumadas e querem ouvir o que toca nas rádios, mas nós não queremos fazer só isso. Queremos mostrar o que pensamos, o que sentimos, nós temos voz. 

Tribo - Temos uma nova geração de artistas com um trabalho muito interessante em várias vertentes. Além disso, temos um ótimo público, jovem, curioso, querendo ouvir coisa nova e de qualidade. Ainda esbarramos na falta de incentivo para movimentar esse cenário, ver essa galera alternativa ganhar espaço com um trabalho que realmente represente o que nossa cultura tem de melhor, e não ver músicos e grupos tendo que se prostituir musicalmente para poder ver seu trabalho com algum tipo de respaldo em termos financeiros ou de reconhecimento.

Vocês acham que o trabalho que vocês vêm desenvolvendo com o cover atrapalha ou ajuda na formação de público para a música autoral de vocês?
Tribo - Não atrapalha. A gente só toca o que gosta e acaba sendo influência na nossa musicalidade e, consequentemente, tendo relação com nosso trabalho autoral. E também temos o cuidado de dar outra roupagem para as músicas, deixar elas com a nossa cara, e não simplesmente reproduzir. Além de ser prazeroso pra nós tocar músicas que estão na nossa formação musical é interessante a recepção do público para essas músicas conhecidas com uma pegada diferente.

Jhon Raifer - Nós fazemos a MPB (Música Preta Brasileira) e, quando fazemos os covers, estamos mostrando quem são as nossas influências. E o público também gosta disso. Eles querem ouvir algo que também se identificam de uma forma diferente. E essa é a nossa proposta. Não queremos ficar na linha do "mais do mesmo", entende? 

Nando Rozendo a.k.a. Tribo - Foto de Everton Batista

A música de vocês fala muito sobre bandeiras do movimento Black. Como vocês avaliam a sociedade alagoana em relação a essas lutas?
Tribo - Pra nós, é fundamental expressar nosso ponto de vista sobre o que envolve nossas vidas. Nossas músicas tratam de temas do nosso cotidiano e é inevitável falar de temas como desigualdade social, violência, falta de assistência do Estado, coisas que os moradores de bairros periféricos de qualquer lugar estão vivendo no seu dia a dia. A Favela Soul é formada por integrantes que moram em bairros marginalizados, como o Jacintinho, Bebedouro, Feitosa, Colina e que, apesar de formações musicais diversas, temos um ponto em comum, que é a música de origem negra, seja no reggae, hip hop, jazz, funk. Então, é natural que esses temas que são bandeiras do movimento black estejam presentes na nossa música. Mas não se trata apenas da questão do negro, e sim de toda uma massa que está, de alguma forma, sendo privada de direitos básicos e fundamentais para qualquer ser humano. Seja pela cor da pele, classe social, origem étnica, orientação sexual ou opção religiosa. É preciso bem mais que "pão e circo", é preciso ter acesso à educação de qualidade, saúde, moradia digna, emprego, acesso à cultura. Estamos aí pra botar o dedo na ferida.

O que vocês acharam do Projeto?
Jhon Raifer - O projeto é maravilhoso! Está abrindo portas para os artistas da terra que querem mostrar seu talento. Precisamos desse apoio. As pessoas precisam valorizar o que tem aqui. Ninguém imagina, mas temos artistas incríveis que não recebem apoio e nem o valor que merecem. Isso começa pelos próprios amigos que não valorizam, que não apoiam. Sabe, eu tenho, 11 anos de carreira, já fiz vários trabalhos, muitos shows e pode parecer incrível, mas eu conto em poucos dedos de uma mão quantos desses meus "amigos" foram a um show meu. Então a valorização não é apenas da TV, da rádio, dos meios de comunicação em geral, as pessoas tem que rever seus conceitos e aprender a apreciar o quer as pessoas querem dizer. 

E agora, qual será o foco da carreira de vocês, o cover ou o autoral?
Tribo - Nosso foco agora é trabalhar nosso repertório próprio e correr na produção para lançar nosso primeiro álbum. Com esse apoio do IZP as coisas vão se tornar mais fáceis, mas o caminho ainda é longo. Claro que nosso repertório também vai incluir músicas de artistas que são referência pra nós, mas nosso foco agora é o repertório autoral.

Jhon Raifer - Nós queremos continuar mostrando para as pessoas o porquê da Favela estar aqui, queremos continuar mostrando nossas letras, nosso som, a nossa alegria, a nossa raiva, tudo isso em forma de canção. E com certeza continuaremos homenageando – essa é a expressão correta: homenageando – os artistas que nos influenciaram, tocando as suas músicas e, a cada dia, amadurecendo com cada experiência.


domingo, 19 de agosto de 2012

Entrevista: Cris Braun

Cris Braun e seu fabuloso momento

Diogo Braz

Ela lançou dois discos com uma cultuada banda de Rock, três discos solo de MPB e hoje, aos 50 anos, encontra-se em seu momento mais seguro, fruto da experiência adquirida com as primaveras e principalmente com sua lida artística. Não há pressa nem pressão, a cantora e compositora Cris Braun já conhece os caminhos e se diverte experimentando com sua própria produção. Tudo pelo simples prazer de fazer música. 
Seu disco novo está na praça há alguns meses e vem recebendo justas resenhas elogiosas nos quatro cantos do Brasil. Sem fugir dos trocadilhos, o Blog do Espaço Cultural Linda Mascarenhas falou com a autora de Fábula, para saber o que o público pode esperar do seu show do dia 31 de agosto.  
Em entrevista, Cris fala sobre sua carreira, cena musical e principalmente sobre o novo trabalho. Vale a pena conferir a entrevista e o show! 



Você é gaúcha, morou um bom tempo no Rio e hoje fixou residência em Maceió. Como você acha que isso influencia a sua música? Como Maceió te afeta artisticamente?
Tudo me afeta artisticamente. Viver numa paisagem extraordinariamente linda como esta, vivenciar e compartilhar a solitária batalha que é criar espaços, fazer “arte”, e solidificar a cena local, com os poucos recursos que temos. O convívio com os músicos sempre me engrandece e afeta.

Na década de 1980 você fez parte da banda cult Sex Beatles, que teve uma boa repercussão no cenário nacional, tendo circulado inclusive no chamado mainstream. O que você acha que mudou no cenário musical em relação ao cenário dos anos 80?
Pois é, na verdade, o Sex Beatles estão mais para início dos anos 90, mas nossa turma era o mainstream da geração rock BR dos anos 80.
Eu acho que nossa brasilidade foi resgatada, nosso “borogodó”. Eu não sentia essa brasilidade rítmica no Rock BR anos 80. Mas o que mudou tudo neste mundo foi a Internet, né? A gente tem acesso a tanta diversidade, hoje.

Fábula, seu terceiro disco, foi lançado no início deste ano, mas será apresentado pela primeira vez nos palcos no show do dia 31 de agosto, no Linda Mascarenhas. Por que você demorou esse tempo para apresentá-lo ao vivo?
Porque eu sou assim, lentinha (Risos). Montar uma banda, pensar conceitos, montar um show, demora. Todo mundo tem muitos afazeres paralelos e não pode dedicar full time para isto. E eu tinha dúvidas quanto à formação. E como sou chata pra caramba, na dúvida eu não me movo. Preciso ter clareza, certeza para seguir.



Neste show você está acompanhada por um time de músicos que faz justiça ao cognome "Os Fabulosos". Já se sabe que vocês vão mostrar o disco com uma sonoridade um pouco diferente do registro fonográfico. Por que essa escolha? É porque você não gosta de se repetir?
Então... esta foi uma das decisões: Tocar tudo ao vivo. Deixar rolar o som da banda e não somente fazer uma leitura do já feito ali no disco. Tenho tido vontade de ser banda, então não me obriguei a reproduzir roboticamente o disco. Ele está presente, o disco, com a personalidade dos Fabulosos.

O show será uma espécie de celebração da sua carreira, concorda? Será exibido o documentário Memorabília - Sex Beatles, haverá a exposição Mínima orquestra (referência ao seu projeto musical com o guitarrista Toni Augusto, pelo menos no nome) e o show de seu trabalho mais recente. Diante desse retrospecto e da ansiedade da estreia de um novo trabalho, como você enxerga o seu momento atual, a sua carreira? Onde e como vai Cris Braun?
Estou comemorando 50 anos de vida, feitos esse ano. É onde estou. Nunca estive tão perto da resposta ao meu trabalho. E isso é muito bacana. Sempre fui intermediada por departamentos de marketing ou vendas de gravadoras, e isso é um buraco sem fundo. Agora não, sou eu e eu. E isso tem me dado muito retorno.



Mesmo fazendo MPB, você tem uma veia roqueira evidente. Sua música tem timbres atuais e principalmente aquela certa dose de atitude transgressora do Rock. Você acha que isso atrapalha ou facilita a formação do seu público?
BOA!! Olha, eu acho que eu atrapalho a formação de meu público desde sempre. (Risos) ! Sou um camaleão, difícil enquadrar, fazer o que!?!

Como você enxerga o cenário musical de Maceió?
Crescendo e aparecendo, se consolidando, formando a cena. Essa geração de vocês tá mandando ver, tem personalidade, referências diversas. Estão criando o novo e saudável hábito de ser autoral, original e não só covers, cópias.

O que esperar de Cris Braun neste show do dia 31 de agosto e num breve futuro?
Você falou de transgressão, e certa veia roqueira? Acho que juntei os pontos, a boa moça e o moleque. Tudo junto. O show tá mesmo muito massa, como eu brinquei no release. Lúdico, dramático e fabuloso !! Futuro??? hummmm




SERVIÇO
Show - Cris Braun e os Fabulosos apresentam Fábula
Espaço Cultural Linda Mascarenhas (Fernandes Lima, 1047, Farol)
31 de agosto, sexta-feira, a partir das 20 hs.
Qto: 20,00 e 10,00 meia
Informações: 91050401
No site da cantora há informações, links para download de seus discos solo e muito mais. Confira AQUI 



sábado, 18 de agosto de 2012

Entrevista: Guilherme Ramos

Ramos de criatividade para todos os insones
Diretor de Insônia fala sobre o espetáculo e sua produção artística

Diogo Braz

Coincidentemente, eles têm o mesmo sobrenome e, ao que tudo indica, devem ter passado noites em claro por causa de suas mentes artísticas inquietas. Não à toa, o ator, escritor e diretor de teatro Guilherme Ramos se inspirou no insone conto do quebrangulense Graciliano Ramos para construir a montagem da Companhia Teatro da Meia-Noite que está em temporada no Espaço Cultural Linda Mascarenhas: Insônia.
Numa entrevista por e-mail, o inquieto Guilherme Ramos gentilmente fala sobre o espetáculo e mais alguns temas de sua produção artística. Vale a pena conferir o bate-papo e a peça, que fica em cartaz até o dia primeiro de setembro, sempre aos sábados, às 20 horas. 

O espetáculo é inspirado num conto de Graciliano Ramos, como se deu essa escolha? Você não utilizou o texto de Graciliano na íntegra, como se deu o processo de construção do texto do espetáculo?
Era 2006. Estava adaptando “Vidas Secas”, romance de Graciliano Ramos, para teatro de rua. Estava cansado, sem um pingo sono. Insônia das boas. Olhei para o lado e lá estava o livro de contos “Insônia”, também de Graciliano. Dei uma folheada, li o conto, reli o conto, pensei: “isso dá um texto e tanto!”. Virei a noite adaptando. Quase não senti o tempo passar. Foi um trabalho fácil. Prazeroso. O conto era enxuto. Aliás, Graciliano tem essa coisa minimalista no que escreve. Não tive muito o que “cortar”. Apenas segui a linha da história, traduzindo a introspecção literária para a dinâmica teatral. No outro dia, após algumas horas de sono diurno (que nunca repõem o sono da madrugada), vi que a obra completaria 60 anos em 2007... E aí, a magia teatral foi acontecendo.

Mente inquieta


O espetáculo é de 2007, ano em que eram comemorados os 60 anos de lançamento do conto Insônia. Além disso, há outras referências ao numeral 60. Qual é a intenção de trabalhar com essa referência?
O espetáculo tem 60 minutos propositalmente, pois além de uma alusão aos 60 anos do livro e da idade do autor quando faleceu, faz referência às divisões básicas de tempo (60 segundos = 1 minuto; 60 minutos = 1 hora). Simbolicamente, um relógio impiedoso e seu “tic-tac” medonho (que, segundo Graciliano, seria um torturante “sim-não”).

Vocês são uma companhia de repertório, correto? Possuem um arsenal de espetáculos que podem ser apresentados. Por que escolheram Insônia para realizar esta temporada no Linda Mascarenhas?
Insônia se tornou um “xodó” da Companhia. Todos nós gostamos da produção. Mas, por seu conteúdo mais “sério”, foi pouco apresentado nos palcos. O público, de certa forma, prefere o humor – e isso tem de sobra dos outros espetáculos. Daí, quando surgiu a oportunidade de compor a programação do projeto do IZP, foi unânime: “Insônia MERECE isso.” E cá estamos. Em cartaz. Por dois meses. Isso é muito bom.

Insônia é um monólogo em que o personagem narra delírios que o fizeram despertar. O que o espetáculo pretende despertar no público?
Reflexões acerca da mecanização do homem; da inquietude do ser humano versus o condicionamento de animal racional; da dualidade que nos cerca, nos move, mas também, nos imobiliza.

Guilherme Ramos e a palavra


A dúvida entre o sim e o não, tal como a pílula azul ou vermelha no filme Matrix, desenha um dilema que diversas pessoas enfrentam no decorrer da vida. Na sua opinião, quais são os principais dilemas enfrentados pelo teatro alagoano atualmente?
Arte... ou dinheiro? Texto autoral... ou texto da SBAT*? Teoria teatral... ou prática teatral? Teatro de grupo... ou empresa de teatro? Investimento pessoal... ou edital público? Fazer teatro... ou arrumar “emprego”?
(*) Sociedade Brasileira de Autores Teatrais.

Qual a importância das temporadas para o desenvolvimento de um espetáculo?
Sabemos como é difícil entrar em temporada em Maceió. Poucos teatros (com pauta acessível), pouca segurança nas ruas, poucos locais para estacionamento, pouco dinheiro, pouco interesse... Quando alguém decide enfrentar tantos empecilhos e ir ao teatro, precisa ter acesso a um bom trabalho. E bons trabalhos só são alcançados com muitas apresentações, com o público presente. E isso só é possível com longas temporadas. Um final de semana apenas não faz um espetáculo amadurecer. Em alguns casos, um final de semana transforma-se na única chance de um grupo ser conhecido pelo público. Ao seu término, o fantasma da falta de incentivo, além de todos os problemas já citados, podem até “matar” a produção e esta nunca mais ser vista. Uma temporada longa é a antítese desse processo: espetáculo e grupo ganham força com o
passar do tempo, ganham experiência e, é claro, um público.

Você é dono de uma mente criativa e inquieta. Artisticamente, o que tem feito você perder o sono ultimamente?
São tantas coisas... Escrevo um romance há anos; tenho idéias e mais idéias de outros livros (romances, contos, RPG* etc.), alguns já iniciados; há quatro ou cinco textos teatrais que lutam entre si – na minha cabeça – para ver quem será escrito primeiro; há desejos de adaptação de outras obras literárias para o teatro; há textos de teatro (entre eles, um musical infantil) já escritos, ainda inéditos, clamando para serem produzidos; há músicas e trilhas sonoras compostas (e em composição) esperando o momento certo para serem utilizadas; e há meu blog (www.prosopoetica.blogspot.com), onde posto minhas inspirações que não cabem – ainda – nos palcos. Este último é quem tem me confortado, porque a literatura, o teatro e a música exigem mais de você. “Blogar” é mais simples: postou, tá valendo. E qualquer um com Internet, acessa. Por conta disso, tenho investido um pouco mais nele. Estou criando um livro on-line (e gratuito) de contos sequenciados, como se fosse uma série de TV. Cada capítulo-episódio terá começo, meio, fim e desdobramentos para o próximo. A temporada completa deve ter entre 11 e 22 episódios semanais, quinzenais, mensais... É uma experiência nova para mim e não sei no que isso vai dar, mas você pode tirar suas próprias conclusões: book-trailer em: http://prosopoetica.blogspot.com.br/2012/08/post-mortem-video-de-abertura.html. Post Mortem – Quando Tudo Começa, um seriado literário composto por contos sequenciais inundados por um oceano fervente de realismo fantástico, cercado por traiçoeiros icebergs de verdade nua e crua – da vida (pós-morte). 
(*) Role Playing Game (jogo de interpretação de papéis).

Arte com A maiúsculo


O que o público pode esperar do espetáculo Insônia?
Um dos mais sufocantes contos de Graciliano Ramos numa das melhores atuações de um ator alagoano. Marcos Vanderlei dá tudo de si nesse personagem. Sua preparação foi além da literatura e do teatro. Sua performance vai além do corpo. Só assistindo para entender o que digo. Não é marketing. É Arte. Com “A” maiúsculo.